terça-feira, 8 de agosto de 2017

'Clarín': Crise na "cidade maravilhosa" leva executivos a morar nas ruas

Reportagem diz que números de desabrigados triplicou de 2013 para os dias de hoje.


Jornal do Brasil

O jornal argentino Clarín traz uma reportagem nesta terça-feira (9) sobre a crise econômica do Rio de janeiro, que está levando milhares de pessoas a ficar sem ter onde morar. O diário destaca que são ex-gerentes ou profissionais que perderam seus empregos a legião de mais de 13 milhões de desempregados tomados pela recessão do país e o número de moradores de rua triplicou de 2013 para os dias de hoje. No final de 2016, o prefeito do Rio contou 14.279 pessoas desabrigadas. Clarín entrevistou Vilmar Mendonça, que foi gerente de RH de diversas empresas no Brasil, mas ha um ano e meio vive nas ruas do Rio de Janeiro, como milhares de vítimas da crise na "Cidade Maravilhosa".

Mendonça perdeu o emprego em 2015 e ficou um tempo com a poupança, mas, aos 58 anos, agora dorme em um banco na frente do aeroporto Santos Dumont. Ele deixou alguns pertences em um escritório do banco que é cliente, faz suas higienes em banheiros públicos e se alimenta de restos de alimentos distribuídos por várias ONGs. "É uma situação terrível, mas eu não tive escolha", diz o executivo magro, divorciado e sem filhos, de Itajaí (Santa Catarina, sul).

Clarín aponta que 70% dos desempregados têm ensino superior, como Vilmar, que é formado em administração de empresas na São Paulo e trabalhou para a filial de uma multinacional. Sua situação reflete a ferocidade de uma recessão que deixou 13,5 milhões de desempregados, na cidade que há apenas um ano inaugurou com pompa os Jogos Olímpicos. "Em tal situação, ninguém quer estar perto de você", diz ele.

Como muitos, ele não conta a sua situação para quase ninguém e acredita que será temporária. Enquanto no Rio quase todos desviam o olhar dos moradores de rua, os turistas que andam por Copacabana e Ipanema vêem desabrigadas em quase cada esquina, um cartão muito diferente dos anunciados nas agências de turismo, ironiza Clarín. No centro histórico, perto dos arcos da Lapa, a noite aparecem grupos de até 20 pessoas que ocupam ruas inteiras e dezenas dormem em cima de papelões, descreve o texto. A imagem é impressionante, mas ainda as histórias por trás de cada "morador da rua". A maioria são negros de famílias pobres e muitos são viciados em drogas com problemas psicológicos ou familiares; Há também vendedores de rua e funcionários, mesmo aposentados, como Gilson Alves.

Gilson, 69, trabalhou como técnico de radiografias em 35 hospitais públicos do Rio, mas por causa de atrasos no pagamento da sua pensão ele teve que vender seus pertences e deixar o seu apartamento de aluguel. Este homem de olhar doce nunca teve uma vida fácil. Aos 5 anos, ele perdeu uma perna, atingido por um bonde. Há dois meses ele deixou um saco na rua e, depois de ter sido roubado tudo foi resgatado pelos serviços do prefeito e ele foi transferido para um dos 64 abrigos municipais com capacidade para 2.200 pessoas. "Eu me sinto muito triste, humilhado", diz ele.

O periódico argentino lembra que a recessão tem profunda ligação com a política, já que o ex-governador Sergio Cabral (2007-2014) foi condenado a mais de 14 anos de prisão, acusado de desvios bilionários de dinheiro público.

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