terça-feira, 1 de agosto de 2017

A porta giratória de Henrique Meirelles.


É muito dinheiro mesmo, Meirelles.
por Guilherme Boulos

Os ganhos milionários da consultoria do ministro da Fazenda provam que a promiscuidade entre o público e o privado continua a ser uma regra. O site de notícias BuzzFeed revelou recentemente que Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, recebeu R$ 217.000.000,00 por meio de sua firma de consultoria apenas em 2016. Parte dos valores, R$ 50.000.000,00, foram embolsados em setembro daquele ano, quando Meirelles já ocupava o cargo. Não houve alarde. A mídia, salvo exceções, não deu qualquer destaque. A Bolsa de Valores não se alvoroçou e tudo permaneceu como dantes. Impressiona que a porta giratória, pela qual se transita promiscuamente entre o setor privado e o público, seja tratada no Brasil com naturalidade, como uma corrupção consentida.

Meirelles é um profissional da porta giratória. Atuou 28 anos no BankBoston, do qual chegou a ser presidente global entre 1996 e 1999. De operador de um dos grandes agentes do mercado financeiro voltou ao Brasil para presidir o Banco Central no governo Lula. Seu período de oito anos no comando da política monetária foi uma era de ouro para os bancos. Lucros recordes e manutenção da taxa de juros entre as mais elevadas do planeta, apesar de redução gradual.

No governo Dilma, foi retirado da equipe econômica, mas permaneceu no governo, à frente da Autoridade Pública Olímpica, até 2014. Voltou então para o setor privado, com sua empresa de consultoria HM&A, esta que recebeu R$ 167.000.000,00 em contas no exterior três meses antes de seu proprietário assumir o Ministério da Fazenda com a consumação do golpe.

Consultoria ou informação privilegiada? Consultoria ou tráfico de influência? Estas são as questões da porta giratória. É pouco verossímil que bancos e outros agentes financeiros tenham pagado cifras milionárias apenas pelos conhecimentos teóricos do ministro. A escola que o formou, formou centenas de outros. A participação anterior no governo e a perspectiva de retorno a um posto de comando no setor público permitem um nível de informação e influência muito mais lucrativa no mercado.

Com a empresa de consultoria de Antonio Palocci foi a mesma coisa, embora com um valor dez vezes menor, o que não a torna mais aceitável. Mas, naquele caso, houve interesse em fazer certo alarde. A porta giratória é antes regra do que exceção.

O atual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn saiu diretamente da posição de economista-chefe do Itaú. E provavelmente para lá, ou para alguma empresa de consultoria, voltará após sua passagem pelo poder público. Aliás, coincidência ou não, em abril deste ano o Itaú recebeu perdão de uma dívida de R$ 25.000.000.000,00 após decisão do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o famoso Carf.

Enquanto não se estabelecer regras que travem a porta giratória, proibindo o livre trânsito das raposas ao galinheiro, seguiremos a assistir casos suspeitos de promiscuidade entre agentes públicos e seus patrões passados ou futuros.

Em relação a Meirelles, após a revelação das operações milionárias de sua consultoria, inclusive com recebimentos quando estava no governo, o mínimo a se esperar seria sua imediata demissão. Se estivéssemos, claro, em uma situação de normalidade democrática no Brasil.

A porta segue a girar. E nós pagamos a conta.

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