segunda-feira, 8 de maio de 2017

Exclusivo: Plano para assassinar promotor é investigado.

Áudio interceptado mostra insatisfação de milicianos com atuação de agente do MP.


BRUNA FANTTI

Rio - A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) investiga um plano para matar o promotor André Guilherme Freitas, que atua na Execução Penal. O plano seria articulado por ex-policias militares presos no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. Um áudio interceptado na sexta-feira, ao qual O DIA teve acesso, mostra a insatisfação de milicianos com a oposição de Freitas em transferir ex-PMs de Bangu para o Batalhão Especial Prisional (BEP), presídio da corporação, em Niterói. Na gravação, um homem diz que foi informado da situação pelo “coroa que manda na cadeia”. O ‘coroa’, desconfia o promotor, seria alguém do alto escalão da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). “O áudio mostra que alguma autoridade graduada da Seap pode estar fazendo promessas de forma ilícita, ou seja, recebendo dinheiro em troca de transferências”, diz Freitas. “Me oponho à permanência de ex-policiais no BEP, onde só podem permanecer presos que estejam no quadro da PM e isso gera insatisfação”, afirmou. Na gravação, um suposto miliciano diz que “os amigos ainda não atravessaram para Niterói” e que isso seria culpa de Freitas. Ele afirma, então, que “o negócio é resolver o destino dele”. Ressalta que o promotor possui seguranças e que seria necessário ter armas potentes para a realização de um ataque. Ingresso no Ministério Público em 1999, Freitas atua na Promotoria de Justiça de Execução Penal desde 2003. Nos processos de sua atribuição, é ele quem deve se manifestar em relação à permanência e transferência de presos para o BEP. Ex-PMs, condenados ou não, são transferidos para o presídio Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário, onde o horário de banho de sol e de visita são rígidos. No BEP, eles têm mais liberdade.



Afastado
Em junho do ano passado, o promotor denunciou à Vara de Execuções Penais (VEP) regalias concedidas a presos de alta periculosidade, autorizadas por Sauler Antônio Sakalem, subsecretário adjunto de Unidades Prisionais e o segundo na hierarquia da pasta. Sauler foi afastado do cargo, na época, por 60 dias. Durante a apuração, o ex-coordenador da Seap Fábio Sobrinho disse, em depoimento, que Sauler favoreceria milicianos com transferências, recebendo vantagens ilícitas para o ato. “Há suspeitas em desfavor desse servidor. Avisei pessoalmente ao secretário da Seap, inclusive, que nada fez”, disse Freitas.

Vice da Seap é parente de braço-direito de Carlinhos Três Pontes
O vice na hierarquia da Seap, Sauler Antônio Sakalem, possui grau de parentesco com Fábio Nadaes, apontado pela Draco como braço-direito do miliciano Carlinhos Três Pontes, chefe da Liga da Justiça, morto em abril. Nadaes foi preso sexta-feira, após ter cassado o habeas corpus que o mantinha livre. Consultado sobre a suspeita e sobre o parentesco, o gabinete do subsecretário pediu para que O DIA procurasse a assessoria de imprensa da Seap, que respondeu: “A Seap aguarda a autoridade competente encaminhar tal documentação para apurar os fatos relacionados”.


Sauler é primo de Ângela Maria Nadaes, mãe de Fábio Nadaes. “A residência de Nadaes fica em um condomío fechado de luxo em Vargem Grande, Jacarepaguá. Na garagem havia dois carros caros, incluindo uma Hillux blindada”, afirmou um investigador. Sexta-feira foi a segunda vez que a Draco prendeu Nadaes. Na prisão de 2016, ele comemorava sua festa de aniversário em um quiosque na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Na mesma mesa de Nadaes estava sentado o filho do subsecretário da Seap, o soldado da Polícia Militar Sauler Campos de Faria Sakalem. Na época, agentes da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança (Ssinte) acompanharam a ação e enviaram para a Polícia Militar um relatório de inteligência apontando a presença de Sauler ao lado de Nadaes.


Fabio Nadaes Moraes, quando foi preso em 2016. Ele era o braço financeiro 
de Carlinhos Três Pontes, da Liga da Justiça, morto mês passado.

Passado um ano da entrega do documento, a PM ainda não investigou o caso. Em nota, a corporação informou que “o documento foi processado, aberto procedimento apuratório e está em tramitação”. O policial é adido na Secretaria Estadual de Administração Penitenciária, onde trabalha com seu pai. Investigações apontam que o policial é íntimo de Nadaes, tendo inclusive sido seu padrinho de casamento, em 2015, onde o próprio Carlinhos Três Pontes, que estava foragido, compareceu. 

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