quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Falta de antibióticos causa mortes em Instituto de Cardiologia no Rio


A falta de antibióticos para tratamento de infecções foi responsável por mais da metade das mortes ocorridas no último semestre no Instituto de Cardiologia Aluizio de Castro (Iecac), no Humaitá, na Zona Sul do Rio, de acordo com médicos da unidade. Nos relatórios da comissão de óbitos, consta que esse foi o motivo de 30 das 59 mortes registradas entre julho e novembro. Na manhã desta quarta-feira, funcionários e médicos fizeram um protesto na porta do hospital, que é referência em tratamento de cardiologia na rede estadual. Segundo eles, medicamentos fora da validade já são rotina na unidade, bem como a falta de materiais básicos, como gaze e agulhas. — A Saúde do Rio vive hoje um processo genocida. Estamos enfrentando uma situação de aumento de mortalidade em quase toda a rede do estado. O Iecac, lamentavelmente, não foi poupado da crise do estado. A falta de medicamentos tem elevado o índice de óbitos por infecção — alerta Jorge Darze, diretor da Federação Nacional dos Médicos e membro do Sindicato dos Médicos do Rio.


Jorge Darze, diretor da Federação Nacional dos Médicos.

De acordo com dados do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), em novembro do ano passado os óbitos causados por infecção generalizada aumentaram em 61,5% no Iecac, em relação aos meses anteriores. — Os médicos têm que conviver com condições que fogem do que é normal e adequado no atendimento ao paciente. O problema tem a ver com a crise do estado, mas os pacientes não podem pagar a conta — protesta o presidente do Cremerj, Pablo Vazquez.

Uma médica da unidade, que pede para não ser identificada, diz que o hospital deveria ter de cinco a dez tipos diferentes de antibióticos, já que os germes e bactérias variam dependendo da infecção. — Hoje só temos um tipo de antibiótico na farmácia. Amanhã, talvez não tenhamos nenhum — diz.


Lígia, viúva de paciente que morreu após infecção.

José Carlos Oliveira, de 65 anos, foi uma das vítimas da negligência. Depois de esperar 14 anos por uma cirurgia cardíaca, ele conseguiu uma vaga no Iecac no início de novembro, mas morreu no dia 27 de dezembro, após contrair infecção. — Meu marido entrou aqui ativo e com saúde. Ele só tinha o problema de coração, e achou que sairia daqui curado — emociona-se a viúva, Ligia Candeia dos Santos Santana, de 59 anos: — A infecção aconteceu dentro do hospital. Um mês depois da cirurgia, observei secreção saindo da cicatriz dele. Disseram que estava sob controle, com dois antibióticos, mas a infecção sempre voltava. Meu marido foi entubado três vezes e por duas vezes tiraram líquido dos seus pulmões. Foi uma agonia para a família. Procurada, a Secretaria estadual de Saúde (SES) não havia se manifestado até a publicação desta reportagem, às 14:00hs.


Manifestação contra o abandono do Iecac.
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