segunda-feira, 1 de agosto de 2016

11 lugares onde dei o peito e não aconteceu (quase) nada

Como o maior peso da criação recai sobre a mãe porque ela carrega o alimento integrado, o mínimo que se espera é viver esses meses com certa liberdade de movimento.


A autora, amamentando no meio do Museu de Antropologia do México.
MARÍA EUGENIA REDONDO

O aleitamento materno, além de ser a primeira etapa de alimentação de grande parte dos humanos, é um período de relação turbulenta entre uma mulher e seus seios. A OMS e as organizações dedicadas à infância, como o UNICEF, recomendam prolongá-lo o máximo possível (6 meses de aleitamento materno exclusivo e outros dois anos como complemento da alimentação do bebê, e que seja por livre demanda – do filho, claro). Como acontece em quase todos os começos, a primeira etapa costuma se caracterizar por certa confusão, quando ouvimos frases do tipo: “Há quanto tempo já estou mostrando os seios?”. Felizmente, essa é a época de maior recolhimento, em que as prioridades são a recuperação do parto e o tempo dedicado a conhecer o novo morador da casa. O conflito começa quando as mães decidem sair porque precisam trabalhar, querem se divertir ou simplesmente porque desejam fingir que podem continuar levando uma vida mais ou menos normal. Como o maior peso da criação recai sobre a mãe porque ela carrega o alimento integrado, o mínimo que se espera é viver esses meses com certa liberdade de movimento. Por isso, o normal seria encontrar mães amamentando sentadas num parque, na fila do banco ou no ônibus. Mas não. A foto de uma mãe australiana recém-formada dando o peito de beca e capelo em 2014 não deu a volta ao mundo exatamente por representar uma cena cotidiana. Ela mesma confessou que gostaria de ser uma inspiração para que outras mães tenham ânimo de estudar.

Tampouco é necessário aprovar uma lei para proteger as mulheres que dão de mamar em público, como foi o caso de uma mãe que realizou uma petição no site Change.org simplesmente porque não há nenhuma lei que proíba isso, embora às vezes pareça existir. No meu caso, somente quando deixei de fazer isto e decidi transformar o gesto de me descobrir em algo natural é que consegui chegar a 15 meses de aleitamento satisfatório. Veja o que aconteceu quando decidir dar o peito em diferentes lugares:

1. Em cafés, bares e restaurantes: Um das primeiras coisas de que os pais sentem falta com a chegada de um bebê é a vida social. Para minimizar os danos, comprei uma espécie de xale mexicano (moro no México) que usei para transportar minha filha e me cobrir quando dava de mamar. Esse foi o início de um período de contorções e piruetas para conseguir uma postura adequada sem que ninguém visse nada. Meus esforços deixaram de ser úteis quando minha filha decidiu que preferia olhar a paisagem enquanto comia. A partir de então, não tive outra solução a não ser mostrar o peito.

2. Num táxi. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que amamentei num táxi porque depois contei para todo mundo como se fosse uma façanha. Hoje, aquilo parece uma bobagem. Para mim, que havia tomado o táxi com pressa temendo a iminente explosão do choro faminto, foi uma clara demonstração de que a tão difundida “livre demanda” é praticamente uma versão daquele lema de juventude rebelde: “Quero tudo e quero agora”. Enquanto me resignava diante do inevitável, imaginava o taxista olhando lascivamente pelo retrovisor, algo que nem de longe não estava ocorrendo, demonstrando o que eu logo comprovaria na rua: na maioria das vezes, as pessoas nem veem você.

3. Numa festa: Outro obstáculo do aleitamento materno em público é que essa prática limita seriamente sua vestimenta. Ainda mais se você vai a uma festa de gala, pois encontrar um vestido que permita tirar o peito pode restringir muito as suas opções.

4. No teatro. A única peça a que pude assistir durante os primeiros meses de vida da minha filha foi a de um teatro de rua noturno. Aproveitei a escuridão e o tumulto para passar despercebida e que ninguém me acusasse de ser eu quem estava dando o espetáculo.

5. No ônibus: No México, avançar dois centímetros no mapa significa 10 horas de ônibus. Pois bem: a combinação peito e sacudida para fazer dormir um bebê equivale à eficácia de café e cigarro em suas categorias. Este fato garantiu que eu e os demais passageiros estivéssemos tranquilos a centenas de quilômetros de meu lugar de residência.

6. No avião. O avião foi provavelmente o motivo pelo qual mais vezes adiei o fim do aleitamento materno. Levar comida pronta para servir não tem preço. Além disso, mamar durante a decolagem e o pouso alivia o incômodo do ouvido do bebê, o que ajuda a acalmá-lo. E o fato de que esteja mais calmo sem dúvida alivia o incômodo nos ouvidos dos outros passageiros.

7. Na sala Mexica do Museu Nacional de Antropologia do México. Ali, entre ruínas do Templo Maior de Tenochtitlán, e diante do imponente calendário asteca, sentei numa das típicas cadeiras de vigilante de museu para amamentar com calma. Qualquer pessoa que tenha ido a esse museu sabe que é preciso dedicar horas para percorrê-lo, o que, traduzido à linguagem mãe lactante, são pelo menos duas ou três mamadas. Queriam antropologia?

8. Na sala de aleitamento de um shopping. Só fiz uma vez e pelo mero fato de satisfazer minha curiosidade. A funcionária do shopping me surpreendeu dando o peito no vestíbulo do banheiro enquanto eu esperava minha mãe e me ofereceu gentilmente ir à sala de aleitamento “para estar mais confortável”. Ela demorou para trazer a chave, de modo que, quando entrei naquela sala que cheirava a papinha, minha filha já estava na sobremesa. Não me desagradou a ideia de um lugar com poltronas cômodas, música relaxante e aparelho para esquentar mamadeiras... até eu presenciar como trocavam a fralda fedorenta de um bebê gigante.

9. Na praia e na piscina. Colocar um biquíni é como colocar um cartaz “self service” para o seu pimpolho: a comida está mais disponível do que nunca. Por outro lado, como em geral há mais carne exposta, você passa mais despercebida. Mas, curiosamente, a única vez em que pediram que eu me cobrisse foi na piscina de um resort, pois eu podia “incomodar” ou “ferir a sensibilidade” das pessoas que estavam ao meu redor. Ao meu redor, contudo, ninguém havia percebido que minha filha estava curtindo sua merenda.

10. Na sala de reunião de um escritório, durante uma reunião: fui convocada para uma reunião com poucas horas de antecedência e não pude pedir a ninguém que cuidasse de minha filha. Então tive de levá-la. A pessoa que convocou a reunião não viu nenhum problema nisso, mas preciso confessar que havia ali vários amigos meus. Ainda assim, aquela foi talvez uma das vezes em que me senti mais incômoda. Por que será que o binômio trabalho/maternidade produz essa sensação inclusive em nós mesmas?

11. No aeroporto e rodeada de amigos. Na primeira vez em que levei minha filha à Espanha, corri para abraçar as 13 pessoas que tinham vindo para me receber. Quando minha filha pediu seu aperitivo, não encontrei lugar para sentar, muito menos intimidade. Então dei o peito ali mesmo, em pé, enquanto explicava efusivamente os detalhes de minha primeira viagem na companhia do bebê. Para meus amigos, que não me viam havia meses e ainda não tinham conhecido minha filha, acredito que aquela foi a melhor apresentação do momento que eu estava vivendo.

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