quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sem gás, moradores da Fazenda Botafogo ainda recebem contas

Com o problema há um mês, famílias improvisam 
para sobreviver e fazem ligações clandestinas.


Júnior Mello perdeu a filha Karen, de 13 anos, na explosão. Hoje vive 
na casa de parentes e aguarda ajuda de custo emergencial da CEG de R$ 4.000,00.
O DIA

Rio - Não bastassem os transtornos de ficar quase um mês sem gás, famílias do conjunto habitacional Fazenda Botafogo, na Zona Norte — onde cinco pessoas morreram na explosão de um dos prédios — começaram a receber as faturas de abril, sem desconto pelos dias com fornecimento interrompido. As contas, enviadas pela Companhia Estadual de Gás (CEG), mostram que a leitura do consumo foi feita até dez dias após a explosão, no dia 5 de abril, quando o serviço foi suspenso. É o caso do militar Alexandre Pereira de Souza, de 46 anos. O prédio dele não foi atingido, mas a fatura veio com dez dias de cobrança a mais. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon), Patricia Cardoso, desde a assinatura do termo de compromisso da Defensoria Pública com a CEG, ficou acertado que não seria possível a cobrança integral da fatura já que houve a ruptura no serviço. “As pessoas não devem pagar a cobrança mensal. A fatura a ser cobrada deve ser até o dia 5 de abril. Caso não tenha sido cumprido, os moradores devem comunicar à CEG e à Defensoria Pública”, disse Patrícia. Já a concessionária informou que não foram emitidas cobranças para o prédio atingido pela explosão. Para as demais unidades, a companhia alega que está emitindo para quem não teve o fornecimento cortado. Para os que tiveram o abastecimento paralisado por medida de segurança, a cobrança é relativa apenas ao período em que houve consumo, segundo a empresa.

Sem poder cozinhar, muitos moradores estão aderindo à conversão do serviço de gás encanado para o gás de botijão. O valor do serviço, que não é autorizado pela CEG, é divulgado em cartazes dos muros do conjunto ou no boca-boca, varia de R$ 80,00 a R$ 220,00. “No desespero as pessoas estão adaptando o botijão”, conta a síndica Sueli Mendes, que esquenta a comida no micro-ondas. A boleira Andrea Ribeiro, 39, moradora do prédio ‘vizinho’ ao que explodiu, amarga enorme prejuízo. “Estou sem trabalhar desde o dia da explosão”, reclama. As investigações sobre as causas do acidente ainda estão em andamento, de acordo com o delegado de Honório Gurgel, Fabio Pacífico, que aguarda conclusão de laudo pericial.

Gastos com quentinhas dão prejuízo
Com colesterol alto e sem gás para cozinhar, a rotina do militar Alexandre Pereira mudou. Antes da explosão, ele gastava R$ 600,00 nas compras de mês. Agora, desembolsa R$ 40,00 por dia ou divide a quentinha com a esposa, que costuma comprar no Bar do Angelo, próximo ao conjunto. Para alguns, o acidente melhorou a renda. Angelo de Almeida, dono do bar que chega a vender 70 refeições por dia, diz que a procura pelas quentinhas — que custam de R$ 10,00 a R$ 18,00 — aumentou. “Apesar da crise, as vendas melhoraram.”

Junto com a Defensoria, a CEG estuda uma forma de minimizar o gasto até que o fornecimento de gás seja normalizado. Mas ressalta que, no momento, a prioridade é garantir a segurança dos moradores e, por isso, está avaliando as instalações internas dos prédios, em trechos que não estão sob sua responsabilidade. Júnior Mello, que perdeu a filha Karen, de 13 anos, na tragédia, até agora não recebeu a ajuda de custo emergencial da CEG, no valor de R$ 4.000,00 mil. Ainda muito abalado, ele atrasou a entrega de documentos na Defensoria. Desempregado e com a esposa debilitada pela explosão, Júnior mora, atualmente, na casa de parentes, e não vê a hora de recomeçar. “Meu plano é diminuir nossa dor pela perda da nossa filha. Terminar o tratamento da minha esposa e recuperar o que perdemos”.

Reportagem da estagiária Julianna Prado
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