domingo, 29 de maio de 2016

Datas comemorativas sem explicação de origem alimentam o comércio

Pesquisadores ressaltam que para tornar um dia oficial, de verdade, com direito até a feriado ou ponto facultativo, porém, é preciso insistência e, especialmente, bons argumentos.


Foto: Arte:O Dia
FRANCISCO EDSON ALVES

Rio - Hoje é dia de quê? Essa tem sido uma das perguntas mais frequentes na rotina dos internautas. Sempre com resposta. Nem sempre com explicação. No calendário existem pelo menos 140 datas e 11 semanas comemorativas de algo inusitado. Menos de 100 são oficiais, instituídas pelos poderes governamentais, por meio de leis. Muitas chegam a ser esquisitas. Há, por exemplo, o já consagrado Dia do Orgasmo, dia 9 de maio; o Dia Nacional dos Carecas, em 14 de março; o Dia Mundial do Hambúrguer, festejado ontem. A maioria das datas estranhas surgiu do imaginário popular. Informalmente, são dedicadas a personalidades, a momentos históricos ou, simplesmente inventadas só para amigos e parentes tirarem “uma onda”. Com o passar do tempo, foram se firmando no calendário popular. De acordo com o historiador Milton Teixeira, a maior parte das datas comemorativas foi criada pelo comércio, entre o final do século 19 e início do século 20. “Foram instituídas com o único objetivo de comercializar produtos referentes ao que passou a ser propagado de boca em boca, de geração em geração. Ou seja, é pura jogada de marketing, meramente comercial, sem nenhuma raiz de afetividade”, garante Milton.

Como foi criado o Dia Mundial do Hambúrguer, por exemplo, é uma incógnita. O que historiadores entendem é que tudo começou na era da industrialização, já no final do século retrasado. O hambúrguer teria surgido da necessidade de lanches rápidos, por causa da correria dos trabalhadores que passaram da pacata vida do campo para a agitação das indústrias nas grandes cidades. “A propaganda em torno da pequena, rápida e saborosa porção de carne moída amassada entre duas fatias de pão, passou, ao longo das décadas, pela menção da data dedicada ao mimo alimentício”, comenta a historiadora Joselene Lima, lembrando que a maior parte das redes de fast-foods do Rio investiu maciçamente em propagandas nos meios de comunicação, anunciando diferentes tipos de hambúrgueres. “Criaram hambúrgueres de pato, de lentilha, de couve-flor e de siri. O ramo do comércio faturou muito em cima do anúncio do Dia Mundial do Hambúrguer”, concorda Joselene.

Pesquisadores ressaltam que para tornar um dia oficial, de verdade, com direito até a feriado ou ponto facultativo, porém, é preciso insistência e, especialmente, bons argumentos. “A iniciativa mais usual é quando uma pessoa ou grupo procuram um vereador ou deputado, dependendo de o dia lembrado ser municipal, estadual ou federal, para sugerir um projeto de lei. Depois de aprovado pelo Legislativo, num processo de votação que pode levar meses, anos ou até décadas, a proposição deve ser aprovada pelo Poder Legislativo, ou seja, pelo prefeito, governador ou presidente da República".

Os dias comemorativos internacionais costumam ser aprovados na Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas (ONU), pelos países membros ou por organizações reconhecidas, como a Organização Mundial da Saúde. Vários sites tratam do assunto, tentando jogar luz nos primórdios de cada data que acabou ganhando fama. Um deles sustenta que teria sido graças a uma canetada de Dom Pedro II que surgiu, no dia 25 de junho, o Dia do Quilo. O marco seria para frisar a adoção nacional do sistema métrico decimal francês, que usa as unidades de medida quilo, metro e litro. Mas se muitos achavam que o Dia do Quilo não tinha explicação, imagina o Dia do Orgasmo? Sim, ele existe e é bem popular. Foi criado em 2001 em Esperantina, uma pacata cidade de 50 mil habitantes, a 186 quilômetros de Teresina, no Piauí. O autor do projeto que criou a lei do Dia do Orgasmo, o advogado e ex-vereador do município, Arimatéia Dantas, goza de prestígio entre os que lidam com educação sexual. Apesar de parecer piada, a data sugerida por Arimatéia não desperta deboche entre a classe médica, que usa a data para promover debates e palestras sobre o tema nas escolas, postos de saúde, hospitais e clubes de serviço.

E o que dizer do Dia Nacional dos Carecas? Se é verdade que é dos calvos que elas gostam mais, como diz a famosa marchinha, nem com muita “força na peruca” se explica quando e como surgiu tal homenagem. No mesmo patamar de esquisitice estão os dias dos Adultos (em 15 de janeiro); da Língua Materna (21 de fevereiro); do Cacau (26 de março); da Sogra (28 de abril); Mundial do Abraço (22 de maio); Universal de Deus (14 de junho); da Pizza (10 de julho); da Logosofia (11 de agosto); do Pombo da Paz e das Tias Solteiras (20 e 25 de setembro, respectivamente); das Abelhas (3 de outubro); das Saudações (21 de novembro) e do Palhaço e do Vizinho (10 e 23 de dezembro). Outras datas, recém-criadas, só devem pegar, quem sabe, daqui a alguns anos ou mesmo décadas. São o Dia do Blogueiro, do Apaixonado por Fotos e do Músico de Calçada. Hoje, 29 de maio, comemora-se o Dia do Estatístico, o profissional que planeja, processa e analisa dados para o sucesso das empresas.

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