domingo, 17 de abril de 2016

Três homens acompanham jornada de Dilma até a ameaça de impeachment

Relembre trajetória da presidente da República 
até o processo que hoje ameaça seu governo.


Dilma Rousseff
Foto: Efe
O DIA

Rio - Três homens foram decisivos na jornada da presidente da República para o cadafalso que hoje ameaça engolir seu mandato. O primeiro foi seu pai político. O segundo, um juiz. O terceiro foi aquele a quem Dilma deu as mãos nas eleições de 2010 e o pescoço no processo do impeachment que chega agora na fase decisiva. O primeiro homem é o criador da presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Com uma popularidade recorde em dois mandatos seguidos na Presidência, ele escolheu Dilma para sucedê-lo, mas deixou de herança uma série de escândalos de corrupção. O ex-metalúrgico fez mais. Sob a orientação de Lula, “o Partido dos Trabalhadores juntou-se, por uma mutação própria, às fileiras mais deformadas do resto da fauna política brasileira — PMDB, PP e sua laia. O PT negou seu passado”, resume o historiador britânico Perry Anderson, um dos mais brilhantes estudiosos da cena política brasileira.

Anderson mostra que a história da crise do governo Dilma começou no governo Lula, quando o vendaval do Mensalão sinalizou para os brasileiros que até o PT, eleito com o discurso moralizador, estava sujeito à chaga da corrupção. Sob a mira dos investigadores da Polícia Federal e do Ministério Público, Lula acabou aproximando Dilma das garras de um algoz de alta plumagem, o juiz Sérgio Moro, comandante da histórica operação Lava Jato. Com uma firmeza que os governistas apontam como sanha anti-petista, o magistrado fez muito para ligar Dilma a ilícitos supostamente praticados por Lula. Não conseguiu provas, mas liderou a mais contundente jogada contra a presidente. Em 4 de março, ordenou a condução coercitiva do ex-presidente Lula. Dilma não teve saída. Se solidarizou com o ex e convidou Lula para integrar o governo. A reação do juiz foi rápida. Horas depois da nomeação, em 16 de março, ele desfechou um duro golpe contra Dilma. Divulgou o grampo telefônico mais explosivo da história toda. O país ouviu com perplexidade diálogo de um minuto e 35 segundos entre a presidente e o ex.

Na conversa, a presidente fala que Lula pode usar o “termo de posse em caso de necessidade”. Foi o suficiente para a oposição ligar Dilma à obstrução de Justiça — como ministro, Lula teria direito a foro privilegiado e não mais poderia ser preso e julgado pelo juiz de Curitiba. Dilma Rousseff nega a estratégia. “Não adianta. Quem me fez mudar de ideia e defender o impeachment foi a voz da presidente naquela gravação”, contou o experiente deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) ao DIA. “O momento de nomear Lula foi ruim? Foi, sim. Deu a muitos a impressão de que visava a blindá-lo contra o juiz”, completa Renato Janine Ribeiro, sociólogo e ex-ministro da Educação do governo Dilma.

O terceiro homem, aquele a quem Dilma deu as mãos na eleição presidencial de 2010 e o pescoço quatro anos depois, é o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Presidente da Câmara, acusado de corrupção em vários processos, Cunha acumula as funções de vilão e de comandante do impeachment no Legislativo. “Temos um réu comandando uma farsa”, resume Ivan Valente (Psol-SP). O advogado geral da União, Eduardo Cardozo, sustenta que o processo de impeachment só chegou ao ponto em que chegou porque foi incendiado pelo pior dos combustíveis: o rancor. “Eduardo Cunha não visou à abertura do impeachment. Sua Excelência usou da competência para uma retaliação contra a chefe do Executivo porque esta se recusara a dar garantia dos votos do PT no Conselho de Ética a favor dele”, atacou Cardozo, em sua defesa da presidente. Cunha o rebateu sem piedade: “O governo está no papel dele, o de espernear.”

Reportagem de Ana Beatriz Magno
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