sábado, 2 de abril de 2016

Protesto de taxistas contra o Uber causou 125 km de congestionamentos

Barcas, metrô e trens ficaram lotados. Nos aeroportos, companhias aéreas chegaram a perdoar multas para remarcação de viagens perdidas por atraso.


Do alto era possível ver o nó provocado pelo protesto que fechou 
as principais vias de acesso. Viaduto do Gasômetro ficou parado.
LUCAS GAYOSO

Rio - Se o objetivo era chamar a atenção e paralisar a cidade, o protesto de ontem dos taxistas contra o aplicativo Uber foi um sucesso. Mas as reações da população indicam que, no esforço para ganhar a adesão dos cariocas à sua causa e afastá-los do concorrente, o fracasso foi retumbante. Até a prefeitura, que vestia a camisa dos taxistas e já havia tentado proibir o Uber, assumiu uma postura dura. O prefeito Eduardo Paes ameaçou cassar as concessões de motoristas que repetirem esse tipo de protesto: “É absurdo cercear o direito de ir e vir da população dessa forma. Se isso se repetir, vai ter licença cassada”, disse o prefeito.

A Guarda Municipal aplicou 180 multas por bloqueio de vias. A população também reagiu - e da forma mais prejudicial possível aos taxistas: o movimento do Uber aumentou, segundo a empresa, 700% em relação à média diária. Nas ruas e redes sociais, passageiros demonstravam revolta. “Será que esses taxistas imaginam a quantidade de pessoas que serão a favor do Uber a partir de hoje?”, escreveu um usuário do Twitter. Morador de São Gonçalo, o vendedor Gustavo Cuba, 28 anos, não conseguiu chegar a tempo do seu primeiro dia de trabalho em uma loja de Ipanema. “Demorei o triplo do tempo para chegar nas barcas, completamente caóticas. É revoltante a gente se programar e ter que passar por isso.” Segundo o Centro de Operações Rio (COR), a extensão dos congestionamentos na cidade alcançou 125 quilômetros. Em um dia ruim no Rio, os engarrafamentos somam, em geral, até 90 quilômetros.


A Avenida Francisco Bicalho, na Leopoldina, foi parcialmente 
fechada pelos taxistas nesta sexta-feira por conta do protesto contra o Uber.

Na madrugada de quinta-feira, centenas de motoristas já haviam feito um buzinaço por volta das 03:00hs., da madrugada, acordado milhares de cariocas que nada têm a ver com a batalha contra o Uber. Ontem, às 07:00hs,, diversos pontos já estavam bloqueados, como Av. Francisco Bicalho, Linha Amarela, Linha Vermelha, Av. Atlântica, acessos ao aeroporto Santos Dumont e Ponte Rio-Niterói. O tempo de travessia de Niterói para o Rio chegou a uma hora e 38 minutos. A prefeitura decretou estágio de atenção. Trabalhadores descendo de ônibus para caminhar entre carros parados eram cenas comuns por todos os lados. Por volta das 10:00hs., líderes do protesto e um grupo de taxistas se concentraram em frente ao Tribunal de Justiça para pressionar desembargadores a cassar a liminar que permite o funcionamento do Uber. Chegaram a cercar um suposto carro de Uber que parou no sinal. O motorista saiu do veículo com uma barra de ferro nas mãos, e a Polícia Militar interveio após um início de confronto.


Motoristas protestam contra o serviço Uber e exigem da 
prefeitura do Rio mais concessão de autonomias

“Eles (o Uber) colocaram milhões de carros na rua de um dia para o outro, aproveitando-se de quem está desempregado. Temos excelentes profissionais e uma frota de menos de cinco anos. O Uber não é necessário”, justificava André Oliveira, líder taxista. Os manifestantes começavam a se dispersar por volta das 11:00hs., com a promessa de novas paralisações caso a prefeitura não tome providências contra o Uber.

Uber tem crescimento de 700% em usuários na sexta-feira
De acordo com a empresa Uber, o número de usuários do aplicativo aumentou 700% ontem em comparação com os outros dias do serviço. Como resposta à manifestação dos taxistas, a companhia ofereceu descontos de R$ 20,00 em vários trechos da cidade até às 18:00sh.

“Hoje os cariocas e visitantes poderão enfrentar dificuldades para se locomover pelo Rio de Janeiro. Para que isso não atrapalhe o seu dia, viagens Uber iniciadas ou finalizadas nas áreas das principais conexões de transporte público da cidade terão desconto de R$ 20,00”, divulgou a Uber nas redes sociais. Em áudio que circulou pelo Whatsapp no dia anterior ao protesto, taxistas ameaçaram agredir motoristas do Uber durante a manifestação. A Polícia Militar (PM) informou que reforçou o policiamento nos locais de protestos.


A disputa entre motoristas do Uber e de táxis vêm ocorrendo desde o ano passado no Rio. Em setembro, após grande protesto de taxistas, o prefeito Eduardo Paes sancionou lei aprovada pela Câmara dos Vereadores proibindo o transporte que não seja regularizado. Logo depois, no entanto, o Tribunal de Justiça concedeu liminar, autorizando o serviço, em resposta à ação movida pela empresa Uber, que questiona que a lei limita a livre concorrência.

Transportes públicos lotados
O grande número de passageiros que recorreram aos transportes públicos para fugir do trânsito provocou superlotação nos trens, barcas e metrô. Somente a SuperVia registrou mais de 235 mil embarques em suas estações até às 09:00hs., mantendo toda a frota em operação. O número é um recorde desde que empresa começou a operar a concessão, em 1998. Já a CCR Barcas transportou 43.659 passageiros até às 10:00hs., e registrou aumento de 25% na procura pelo serviço. Na linha Cocotá-Praça 15, foram transportadas 3.438 pessoas durante o rush da manhã. Este número é 96% maior que a média das sextas-feiras do mês de abril do ano passado. O Metrô, desde às 05:00hs., operou com frota máxima e posicionou trens extras em estações estratégicas.


Devido ao ato dos taxistas nesta sexta-feira, muitos passageiros 
deixaram os transportes públicos e terminaram suas respectivas viagens a pé

Nos aeroportos, a correria era grande. Algumas companhias aéreas chegaram a perdoar multas para a remarcação de passagens para pessoas que perderam os vôos devido aos problemas no trânsito. Prestes a viajar para São Paulo, a estudante Nina Cardoso, 25, transpirava na fila da embarque, preocupada com a hora do voo. Saindo do Méier, ela pegou o metrô da Tijuca até a Cinelândia e foi andando até o Aeroporto Santos Dumont. “Fiquei sabendo no rádio, foi uma correria, tive que acordar muito mais cedo. Não sou contra manifestações, mas eles deveriam levar em conta que isso está atrapalhando milhões de pessoas”, lamentou.

Participante do protesto, o taxista Eloy Vieira, de 45 anos, se defendeu das reclamações. “Em qualquer país do mundo pirataria é crime, mas aqui eles não fazem nada. Nós temos família para sustentar, somos profissionais da praça e, de uma hora para outra, qualquer um pode fazer o nosso serviço”, afirmou, além de criticar alguns colegas por casos de agressão ocorridos ontem, como a hostilização a um taxista que tentava trabalhar, na Avenida Francisco Bicalho.

Após os protestos, a juíza Ana Cecília Argueso Gomes de Almeida, da 6ª Vara de Fazenda Pública, recebeu lideranças dos taxistas. Segundo a assessoria do TJ, a reunião não teve caráter oficial para a Justiça, que só pronunciará nos autos do processo. O Secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, também recebeu representantes do movimento. “Nós entendemos a angústia dos taxistas, mas as decisões judiciais precisam ser respeitadas e as contestações precisam se dar no âmbito judicial”.

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