segunda-feira, 18 de abril de 2016

Moradores do Complexo do Alemão já vivem 36 horas de terror

Dois suspeitos são mortos e nove pessoas 
ficam feridas em confronto que deixa marcas.


Durante o dia de ontem, PMs das UPPs do Alemão e do Bope 
ocuparam as ruas do Complexo do Alemão.
O DIA

Rio - Dois suspeitos de tráfico mortos, nove feridos — entre eles, três PMs e uma criança de 7 anos —, um traficante preso e cerca de 70 mil pessoas em pânico. Latarias de veículos perfuradas, paredes de casas com marcas de tiros e cápsulas pelas vias completam o cenário de pelo menos 36 horas de violência no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio. O confronto entre policiais militares e traficantes começou na tarde de sexta-feira. Segundo a UPP Fazendinha, policiais foram alvo de disparos na localidade conhecida como Claro. As regiões mais atingidas foram Loteamento, Pedra do Sapo, Nova Brasília e Fazendinha. Moradores ouvidos pelo DIA contaram os momentos de terror na comunidade. “No sábado estava tendo um evento próximo à UPA da Avenida Itararé, mas depois de tantos tiros, resolvemos suspender. A gente fica naquele desespero: não quer ficar na rua para não tomar tiro, mas dentro de casa também temos que tomar cuidado”, contou uma moradora da Fazendinha, que preferiu não se identificar.

Nas redes sociais, moradores publicaram também relatos sobre o confronto no Alemão e fotos de casas e carros alvejados, além de cápsulas recolhidas nas ruas. O pequeno Iury de Souza Calheiro, de 7 anos, foi atingido por dois tiros na perna no fim da tarde de sexta-feira, quando jogava bola em frente à casa de um tio. O menino passa bem, mas continua internado no Hospital Souza Aguiar. Já Thiago da Silva Pereira, 19, atingido no abdômen por volta das 02:00hs., da madrugada de ontem, passou por uma cirurgia e está em estado grave no Hospital Salgado Filho, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde. Segundo relatos, o rapaz estava em uma festa de comemoração com amigos e familiares, em uma laje, quando foi atingido. Acusado de matar um PM, Igor Quirino Lopes da Silva, 27, conhecido como Salgadinho, foi encontrado ferido na UPA de Itararé e transferido para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, onde morreu. Segundo o portal ‘Procurados’, Salgadinho é acusado de matar pela morte do soldado da PM Fábio Gomes da Silva, 30, em junho de 2014. Pela prisão dele, o Disque-Denúncia oferecia recompensa de R$ 5.000,00. Emerson Tadeu Alvino, 25, conhecido como Sem Dente, já chegou morto na UPA de Itararé, segundo informou a Secretaria municipal de Saúde.

Na sexta-feira, Eduardo Izidio Francisco, 20, foi preso, acusado de tráfico. Segundo o delegado Fábio Asty, da 45ª DP (Alemão), ele trocou tiros com PMs e foi baleado. Eduardo deixou para trás uma carga de drogas e foi reconhecido por ser autor dos tiros. O jovem foi localizado dentro do Pronto Atendimento de Del Castilho, onde era socorrido. “Esta guerra se dá em razão da presença das forças de pacificação no interior do complexo, que atuam visando combater aqueles que se insurgem”, disse o delegado Asty. Dois carregadores de fuzil AK-47 foram apreendidos na ação. O policiamento está reforçado por agentes de outras UPPs da região e do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Líder reclama da violência
Líder comunitário do Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão, Raul Santiago chegou de viagem sexta-feira, após ter participado de atividades com a Anistia Internacional do Brasil, nos Estados Unidos, e ficou surpreso com o novo confronto. E criticou a ação da polícia: “Cheguei já com uma super operação da Polícia Militar e do Bope. A PM está violenta, o Bope toca o terror, o ódio gera muita violência e a corrupção mantém o tráfico”. Para o ativista, a paz ainda está distante no Alemão com o modelo de segurança atual. “Enquanto pensarem em entrar na favela em passeios de Caveirão, não haverá avanços. A UPP faliu, abrindo precedentes para plantões violentos.” Ainda segundo Santiago, o caos instalado na comunidade é culpa dos governantes. “Há um investimento massivo em armas e aparato de guerra, mas nunca em educação, saúde e melhoria da qualidade de vida.”

Reportagem da estagiária Carolina Moura
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