sexta-feira, 22 de abril de 2016

Discurso moderado de Dilma é bem recebido em Nova York


A Presidente fala durante nove minutos na ONU, focando em questões climáticas. Oposição e observadores internacionais classificam discurso de "elegante" e "padrão", destacando papel do Brasil nas negociações climáticas. Em Nova York, a expectativa era de que, ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas nesta sexta-feira (22), a presidente Dilma Rousseff pedisse apoio aos líderes mundiais presentes na cerimônia de assinatura do Acordo de Paris. Mas Dilma se manteve na pauta de mudanças climáticas, e sua postura foi avaliada pelos participantes como moderada.

Até quem faz oposição ao governo classificou a fala da presidente como "elegante". "Ela acabou fazendo um discurso focado no tema, citando pontos de consenso no Brasil, ou seja, a questão da mudança climática", disse José Carlos Aleluia, deputado do DEM que foi a Nova York para acompanhar a performance da chefe de Estado. Apenas no fim do discurso, Dilma mencionou a atual crise política, dizendo esperar que os brasileiros saibam impedir qualquer retrocesso. "Não posso terminar minhas palavras sem mencionar o grave momento que vive o Brasil", declarou, acrescentando que se trata de um "grande país", que venceu o autoritarismo e construiu uma democracia. "Nossa presença como observadores atentos fez com que o bom senso prevalecesse no discurso da presidente", opina Aleluia. "Ela fez um discurso de estadista. Até no momento em que saiu do tema, ela falou de consenso: não vai ter retrocesso."

Foco no clima
Ao ser questionados pela DW Brasil, Miguel Arias Cañete, comissário da União Europeia para Ação Climática e Energia, preferiu não comentar a postura de Dilma e a crise política no país. "Problemas políticos não acontecem apenas no Brasil, mas em muitas partes do mundo. Mas as evidências científicas sobre as mudanças climáticas são tão grandes! E a importância de agir é tão urgente! Isso tem que vir acima que qualquer problema político", afirmou. Tony de Brum, embaixador das Ilhas Marshall, ressaltou a importância do Brasil nas negociações climáticas. Durante a COP 21, ele chefiou a chamada Coalizão de Alta Ambição, que brigava por um acordo mais robusto, que limitasse a elevação da temperatura em 1,5 °C até o fim do século. Na ocasião, ele considerou a entrada do Brasil no grupo – anunciada no último minuto – como fator determinante para o pacto sair. Ao mesmo tempo, Brum se mostrou preocupado com a situação política do Brasil. "O que está acontecendo no Brasil, pelo que parece, não é muito normal", disse. "Confrontos políticos não podem limitar a ação dos planos da Coalizão de Alta Ambição." Segundo Brum, é provável que o grupo discuta o caso do Brasil entre os membros nas próximas consultas.

Compromisso reafirmado
Dilma discursou por quase nove minutos em Nova York – apesar do apelo do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para que os chefes de Estado não ultrapassem três minutos. Do lado de fora, manifestantes pró e contra a presidente protestavam. A líder brasileira assumiu o compromisso de assegurar a rápida entrada em vigor do Acordo de Paris no país, embora seu mandato esteja ameaçado. "Ela falou muito rápida e indiretamente sobre o momento delicado pelo qual passa o país", avaliou Carlos Rittl, do Observatório do Clima. Ele acompanhou o discurso em Nova York como representante da sociedade civil brasileira. "Ela se ateve à agenda da cerimônia e falou muito mais sobre o clima global."

O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) avaliou como positiva a postura da presidente. "O clima é uma agenda de longo prazo e independe do momento político do país. Nesse sentido, foi positivo que a presidente Dilma tenha reafirmado na ONU o compromisso com as metas brasileiras para o Acordo de Paris", disse Marina Grossi, presidente do CEBDS.

"Parcialmente culpada"
Após a assinatura em Nova York, o documento segue para a ratificação no Congresso Nacional e só então passa a ter força de lei. Grossi acredita que o pacto deve ser aprovado e que vai levar empresários brasileiros a uma maior mobilização em favor das práticas de baixo carbono. Para Melvy Levitsky, ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil e professor na Universidade de Michigan, Dilma fez um discurso padrão em defesa do Acordo de Paris. Quanto à crise política, ele disse acreditar "que a solidariedade internacional não vá resolver os problemas do Brasil". Levitsky diz que a população precisa assumir a responsabilidade de acabar com a corrupção endêmica que assola o país. "O que o Congresso está fazendo não é um 'golpe político'. Mas é irônico que o presidente da Câmara dos Deputados e o vice-presidente estejam sendo investigados por corrupção. Ela é ao menos parcialmente culpada por essa bagunça política", opinou.

Deutsche Welle
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