domingo, 27 de março de 2016

‘O único crime provado até agora é do Eduardo Cunha’, diz Quaquá

'Vamos para a rua defender o governo que tirou milhões da 
miséria', diz presidente do diretório do PT fluminense.


Vamos para a rua defender este governo que tirou os pobres da miséria no Brasil
O DIA

Rio - Um dos petistas mais combativos do Rio, o prefeito de Maricá e presidente do diretório estadual, Washington Quaquá, admitiu os erros do governo federal em entrevista ao programa Jogo do Poder, da CNT, que contou com a participação do jornalista Caio Barbosa, do DIA, 

Avaliando a conjuntura atual como gravíssima para a institucionalidade do país, o dirigente ressalta que impeachment é artifício legal apenas para casos de crime de responsabilidade, e que qualquer impedimento da presidente Dilma Rousseff neste momento, sem que provas sejam apresentadas, é um golpe contra a democracia. Quaquá disse que a única prova que se tem até o momento é contra o presidente da Câmara, que segue no exercício de suas funções, e pediu aumento do bolsa-família, do salário mínimo e a injeção de bilhões de dólares dos fundos de reserva para reaquecer a economia brasileira.

ODIA: Qual sua avaliação do quadro político?
QUAQUÁ: A situação é gravíssima. Já vivemos um estado de exceção quando grampeiam o Lula com a presidente em conversais banais, não criminosas, e isso é repassado imediatamente para a Globo, que é o centro do golpe juntamente com um setor direitista do Judiciário e o presidente do Câmara, que tem contas na Suíça e é intocável. Os direitos e garantias individuais foram para o brejo. O que pode acontecer nos próximos dias é uma resistência popular na rua, que impeça um golpe civil como se fez recentemente no Paraguai.

Você acha que se o impeachment passar fica caracterizado golpe? E os argumentos da oposição de que o impeachment é legal por estar previsto na Constituição?
A Constituição prevê impeachment em caso de crime de responsabilidade. A única pessoa que cometeu este crime até o momento é o Eduardo Cunha, que tem contas na Suíça oriundas de corrupção. E é intocável. Os meios de comunicação fingem que falam no nome dele, mas ninguém foi vítima de condução coercitiva, a esposa e os filhos não foram prestar depoimento, nem foram molestados. Todos com contas na Suíça gastando bilhões e nada. O que a elite brasileira quer é acabar com o PT e desmoralizar o Lula porque não toleram que os pobres tenham saído da senzala e começado a andar na Casa Grande. Este processo de inclusão social que o PT fez no país é intolerável para a elite brasileira.

Este discurso, que é válido, sobre as conquistas sociais do governo do PT não pode soar também como uma tentativa de esconder uma corrupção que é inegável?
Em que o governo a Polícia Federal pôde investigar e prender empresários e políticos, inclusive do próprio partido do governo? No governo Sarney? Collor? Fernando Henrique? Nos militares? A corrupção só foi investigada no governo do PT. Nós criamos um marco que permitiu a PF, a Justiça brasileira investigar a corrupção. Fomos os primeiros a colocar políticos pilantras na cadeia. Infelizmente, deram tanta autonomia que deixaram PF e Ministério Público e uma Justiça partidarizada investigando só um lado. Cadê PSDB e PMDB? Não são investigados? O Cunha continua livre, leve e solto comandando o golpe contra a Dilma lá no Congresso.

Na terça-feira, a presidente fez um ato político dentro do Palácio do Planalto, com cem juristas, a favor da legalidade. Como você analisa esse ato?
Válido. Mas ela precisa ganhar as ruas. Tenho defendido o aumento do bolsa-família, o aumento do salário mínimo, a criação de um programa econômico para desenvolver a economia. E vamos para a rua defender este governo que tirou os pobres da miséria no Brasil. E não pode ser destruído pelo Eduardo Cunha e por uma elite que não gosta de pobre, não gosta de preto e não carrega embrulho. Temos que botar este governo na rua e tomar medidas econômicas que melhorem a vida do povo. Temos US$ 100 bilhões num fundo soberano. Tem 300 bilhões num fundo de reservas. O mercado não pode ser o mercado do banqueiro. Tem que ser o mercado da dona de casa, que compra geladeira, compra fogão e comida. Precisamos ativar o mercado colocando o povo para consumir. Precisamos mudar a política econômica do Brasil. 

Essas propostas vêm com 15 meses de atraso, já que a política econômica do governo foi colocada em xeque antes das eleições. E muito se falou que o avanço seria pelo lado popular, de esquerda, das pessoas que ascenderam durante o governo petista. Mas isso não foi feito. Foi feito o oposto. Não é tardio tudo isso?
Sim, por isso tem que ficar fazendo ato desesperado no Palácio. O Lula sempre aconselhou isso, mas a Dilma não ouviu o PT, não ouviu o Lula. Deu no que deu.

O Psol diz que o PT está pagando o preço das alianças equivocadas que fez, favorecendo a direita. E estes setores, quando a situação piorou, se colocaram contrários à permanência do PT no poder.
Falar e fazer política na teoria é muito bacana, mas a política tem uma realidade. Tirar 30 milhões de pessoas da fome ninguém na humanidade, no século 21, conseguiu. Foi o PT que colocou negro e pobre na universidade, que construiu mais de 300 escolas técnicas federais dando futuro a famílias e mais famílias. E só fez isso porque fez alianças à direita. Mas o PT errou ao fazer apenas estas alianças. Tinha que ter organizado o povo, a meninada que foi para a universidade, o pessoal do Minha Casa, Minha Vida. São 13 milhões de casas. Não tem isso na história da humanidade. Tinha que ter organizado os pobres, mas feito uma aliança no Congresso para governar, sim. Mas eles têm razão de dizer que o lulismo esqueceu de organizar o povo porque é o povo que sustenta as mudanças. O PT achou que a aliança com a burguesia seria suficiente. E que a burguesia ia tolerar que o povo saísse da senzala para brincar na Casa Grande. Mas este é outro erro antigo, que vem desde o primeiro governo do Lula, que esqueceu a base. Estamos pagando o preço pelos nossos erros e acertos porque incluímos o povo pobre e a elite não tolera isso. Mas também por não ter organizado o povo. Eu sempre critiquei muito isso. Mas a gente erra, sim.

Qual sua impressão sobre o impeachment neste momento?Será que passa no Congresso?
Há uma nova esquerda surgindo, com uma juventude que foi incluída na sociedade pelo governo do PT, pelo lulismo. Eles começaram a participar, os artistas saíram do muro e começaram a participar. As pessoas viram a gravidade da situação no Brasil e uma nova esquerda está surgindo.

Você acredita que o PT sairá revigorado deste processo? Se salvando ou não? Que partido vai aflorar depois de tudo isso?
O lulismo sai fortalecido e fazendo autocrítica. Temos uma base e não precisamos falar mentira. É só falar a verdade dos pobres que ganharam direitos que nunca tiveram. Da senzala que deixou de existir. A conjuntura que se avizinha é de uma esquerda mais radical, organizada, popular, unificada e ampla, com essa grande rede de transformação conectada. Uma rede destes ninjas (Mídia Ninja), destes jornalistas livres, moleques rebeldes, desses funkeiros da favela, esse novo movimento social que se rearticula, como se rearticulou na ditadura através do sindicatos e comunidades de base para a construção do PT. Hoje surge um novo movimento. Não é superando o PT, é incorporando todo mundo num movimento só.

Qual será o papel do PT no caso de uma eventual vitória da oposição?
Vamos para as ruas, fazer greve, “tocar fogo no país” para que as mudanças que conquistamos não regridam com PMDB e PSDB.

Você é um personagem folclórico, cheio de frases de efeito. Não tem medo de falar no telefone nestes tempos de grampo?
Nasci na favela do Caramujo, em Niterói. Saí com 9 anos para viver na beira de um rio pegando rã. Pobre leva paulada desde que nasceu. Estado democrático de direito sempre foi para rico. Pobre leva porrada de polícia, não tem privacidade. Estou acostumado.

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