quarta-feira, 3 de maio de 2017

Para especialistas, Rio precisa de ajuda federal.


Caio Barretto Briso - O Globo

O coronel José Vicente da Silva Filho, mestre em psicologia social pela USP e ex-secretário nacional de Segurança Pública, acredita que a política de segurança do Rio deveria ser pensada a nível nacional, com participação das Forças Armadas, já que as facções criminosas usam armas de uso exclusivo dos militares. Segundo ele, “o Rio tem o problema de segurança mais sério do país” e, por isso, “não pode ser assunto apenas do Pezão”— Os criminosos entraram em guerra por um território e depois incendiaram veículos na cidade. Isso mostra um agravamento da situação da segurança do Rio pela disposição de combate das facções. Essas armas de guerra apreendidas têm uma função: são para conquistar territórios. É guerra — analisa José Vicente. — O aspecto positivo foi a prisão de muitos traficantes e a apreensão de armas, o que mostra inteligência da polícia. Mas a estrutura de segurança do Rio não é suficiente para neutralizar essa guerra de facções. É preciso uma estratégia para mapear todos os problemas, e repensar até que ponto as Forças Armadas deveriam atuar neste processo, não pode ser assunto apenas do Pezão.

Para o coronel, “o desafio que está colocado hoje é um planejamento global”. — Quando a polícia prende tanta gente e retira tantos fuzis, provoca um estrago muito grande numa facção, mas é necessário mexer na logística do crime. Como entram os fuzis? Quem vende? Por onde entram? Por onde entram as drogas? Como é o abastecimento dessas facções? O desafio que está colocado hoje é de um planejamento global.


Doutora em sociologia, Maria Isabel Couto, pesquisadora da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, afirma que “hoje o estado não tem controle da segurança pública”. — Mas é óbvio que estaríamos pior sem a polícia. O pior não é a polícia não ter controle, mas o fato de não vermos um projeto, um planejamento para responder ao que está acontecendo — afirma a pesquisadora. — Tivemos uma política de segurança que pretendia mudar a forma de combate ao tráfico de drogas. E mudou, durante algum tempo, mas tivemos a militarização desses espaços e a quantidade de homens que a polícia passou a demandar para manter as unidades é insustentável. Quando a polícia começou a falhar, mandou um recado para o tráfico, que agora está recuperando espaços perdidos.


Para o especialista em segurança pública Roberto Kant de Lima, doutor em antropologia pela Universidade de Harvard e professor da UFF, a crise do estado tende a aumentar a atuação das facções criminosas. — O estado empobreceu, não tem recursos nem para pagar os próprios funcionários. A possibilidade de as facções aumentarem sua atuação neste momento é real, pois o estado recua pela falta de recursos. Tudo isso também é consequência do fracasso das UPPs, uma operação militar que teve sucesso na ocupação de territórios, mas deveria ser sucedida por políticas públicas e uma operação policial. A PM não está em condições de fazer policiamento de proximidade, foi atuar nas UPPs da forma como o Exército atuava. É evidente que não daria certo.

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