segunda-feira, 22 de maio de 2017

Muitos presos e pouca paz no Rio.

Uma pessoa é encarcerada a cada dez minutos no estado. Mas repressão policial não reduz crimes.


Capital registrou 1.524 prisões em abril. Superlotação
do sistema penitenciário preocupa autoridades.
WILSON AQUINO

Rio - A cada dez minutos, uma pessoa é presa no Rio de Janeiro. A cada hora, um adolescente é apreendido. E a cada 90 minutos, um suspeito é morto pela polícia. Os dados revelam a intensidade das ações repressivas da polícia no estado. Entretanto, apesar de toda essa efetividade (e letalidade), o trabalho policial não consegue reduzir, a níveis aceitáveis, os índices criminais. Ao contrário do que espera a sociedade, a criminalidade só aumenta, como atesta o relatório do Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP) sobre as ocorrências registradas em abril. Segundo o documento, um assassinato é cometido a cada duas horas, assim como um estupro. A cada hora, um estabelecimento comercial é roubado e a cada três minutos e meio, uma pessoa é assaltada na rua ou no ônibus. Enquanto policiais recuperam um carro roubado ou furtado a cada 15 minutos, um veículo é roubado pelos bandidos a cada 10 minutos. “Aumenta a delinquência, mas a polícia está trabalhando. O grande problema é que a gente não tem leis que desencorajem a prática do crime. Ou seja: o crime está compensando”, lastima o diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança, Vinícius Domingues Cavalcante.

Crimes que mais crescem
O relatório do ISP, elaborado com base nos Registros de Ocorrência lavrados nas delegacias de Polícia Civil, mostra que as modalidades de crime que mais se ampliaram em abril de 2017 foram os roubos a veículos (4.891), com aumento de 50,1% em relação a abril de 2016 (3.259) e de transeuntes (8.551), mais 26,2% de casos comparando com abril de 2016 (6.774). Houve até uma redução significativa, em termos proporcionais, nos homicídios dolosos, na comparação: 9,5%. Porém, os números absolutos mostram que não há muito o que comemorar: 430 pessoas foram assassinadas em abril de 2017, 14 por dia, contra 475 no mesmo mês de 2016.

Mas a polícia prende. E prende muito. De acordo com o ISP, foram efetuadas 4219 prisões em flagrante e através de cumprimento de mandado em abril — média de 140 prisões por dia ou 5.8 por hora. “Não podemos desmerecer o trabalho de policiais que exercem sua profissão em condições tão precárias”, acentua o teólogo e fundador da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa. Entretanto, ele questiona o número de prisões. “Quantos desses presos representam real ameaça à ordem pública. Há inúmeros casos nos quais a aplicação de pena alternativa seria o mais justo e producente”, afirma Costa.

Na capital se prende mais
A capital foi a região onde a polícia mais prendeu em abril:1.524 pessoas. As delegacias do interior, entretanto, não ficam tão atrás: 1.467 suspeitos foram presos no mesmo período na região, apesar de ninguém parar atrás das grades em três delas: 112ª DP (Carmo), 155ª DP (São Sebastião do Alto) e 157ª DP (Trajano de Moraes). A Baixada, com 848 prisões, e a região da Grande Niterói, com 380, completam o quadro de prisões.

Na capital, a delegacia que mais registrou prisões foi a 21ª DP (Bonsucesso ), que abrange os Complexos da Maré e do Alemão, com 199 casos. Na 34ª DP (Bangu), 91 pessoas foram presas. Na 64ª DP (São João de Meriti), na Baixada, foram 100 prisões. Somando as prisões realizadas no primeiro quadrimestre de 2017, chegamos a 15.500 presos no estado. “Esse número está bem acima da média histórica de 120 pessoas presas por dia”, diz o coordenador do Núcleo do Sistema Penitenciário (Nuspen), defensor público Marlon Barcellos. Toda essa gente vai parar no superlotado sistema penitenciário, que foi concebido para 27 mil pessoas, mas que custodia 51 mil. “Esse quadro nos leva à superlotação carcerária e a condições degradantes de aprisionamento e também para as famílias de pessoas presas, além de trazer péssimas condições de trabalhos para agentes penitenciários”, reclama Barcellos.

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