quarta-feira, 24 de maio de 2017

Marcha pede fim de violência na Maré.

De acordo com organizadores da passeata, objetivo é cobrar transparência 
do governo sobre motivos de atuações violentas da PM nas favelas.


A pequena Fernanda Pinheiro foi vítima de bala perdida
enquanto brincava de boneca na laje de sua casa.
O DIA

Rio - Moradores das 16 favelas do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, além de movimentos sociais, ONGs e artistas, realizam uma marcha, a partir das 13:00hs., desta quarta-feira, pelo fim da violência e pela segurança pública nas comunidades. De acordo com os integrantes do 'Fórum Basta de Violência! Uma outra Maré é possível', que convoca a passeata, o objetivo é cobrar transparência do governo do estado sobre os motivos das atuações violentas da Polícia Militar nas favelas cariocas. "No ano passado, morreram 33 pessoas na Maré. Nos três primeiros meses de 2017 já foram 13 por causa das intervenções policiais, se continuar desse jeito vai acontecer uma chacina", diz Marina Motta, integrante do fórum, que foi criado em fevereiro deste ano por instituições da sociedade civil, de órgãos públicos, privados e moradores, e realiza seu primeiro ato nesta quarta-feira.

De acordo com Marina, a população não aguenta mais sentir medo das operações e também está cansada da lei do silêncio — o Complexo é dominado por três diferentes grupos armados, segundo levantamento da ONG Redes da Maré. "Em dia de operação, ninguém pode sair de casa. Os moradores acordam às 5h com o caveirão aéreo (helicóptero da PM). Queremos falar das violações dos direitos humanos que acontecem diariamente na Maré", enfatiza a militante.


Adolescente passava as férias na casa da avó, moradora 
do Parque União. Ele morreu no dia 19 de janeiro.

Segundo a Redes, até o momento, as crianças e os jovens da Maré ficaram 11 dias sem aula e os moradores já contabilizam 17 dias de postos de saúde fechados, inclusive no dia da campanha de vacinação."As crianças vão estar presentes na marcha amanhã. Elas são as maiores prejudicadas, porque tem o direito a educação violado", afirma a integrante.

O ato sairá de duas favelas do Complexo, Parque União e Conjunto Esperança, e terá o ponto de encontro na Rua Evanildo Soares, próximo à Lona Cultural Hebert Vianna, onde terá apresentações musicais e performance, além de oficinas — a de pipa é uma delas. "Essa atividade é muito simbólica, pois além das crianças terem o direito a vida privado, elas também perdem o direito ao brincar, de ser criança."

Diversos artistas como Maria Flor, Patrícia Pillar, Bruno Gagliasso, Rico Dalasam, Adriana Varejão, Camila Pitanga e Lázaro Ramos apoiam a marcha e muitos deles estarão presente no ato.


A organização do protesto vai oferecer transporte para que pessoas de outras localidades possam participar da manifestação. Haverá vans saindo da Zona Sul e do Centro. Os pontos de embarque são: em frente à Fundição Progresso, na Lapa, e no Parque Lage, no Jardim Botânico. A saída dos carros está marcada para 11h e o retorno, 17h. O transporte custa R$ 20 (ida e volta) e é preciso reservar o lugar pelo email (vanmarchadamaré@gmail.com)

A ONG Redes da Maré divulgou, nesta segunda-feira, uma pesquisa feita com os moradores sobre a presença das Forças Armadas na Maré. O estudo "A ocupação da Maré pelo Exército brasileiro — Percepção de moradores sobre a ocupação das Forças Armadas na Maré”, foi coordenado por Eliana Sousa Silva, doutora em Serviço Social pela PUC-Rio e diretora da ONG.

De acordo com a diretora, o levantamento foi realizado entre fevereiro e setembro de 2015, durante a ocupação e foram entrevistados mil moradores, com idade entre 18 e 69 anos, nas quinze favelas ocupadas pelo Exército — apenas Marcílio Dias não teve presença das Forças Armadas. Menos de 1/4 da população da Maré consideraram a ocupação ótima (4%) ou boa (19,9%), enquanto 75,3% avaliaram como regular (49,5%), ruim (11.9%) ou péssima (13,9%). E, para 69,2% da população da Maré, a entrada das Forças Armadas não aumentou a sensação de segurança.

“Não há como não considerar a ocupação um fracasso, tendo em vista as expectativas da sociedade — e dos próprios moradores — frente a um investimento tão vultoso do ponto de vista econômico, logístico, militar, político e social”, afirma Eliana Silva. “O preço que se pagou foi muito alto para que nenhum avanço estrutural tenha ocorrido”, completa.

Ainda segundo a ONG, durante os quinze meses em que as Forças Armadas ocuparam o conjunto de favelas da Maré, foram gastos R$ 1,6 milhões por dia (R$ 600 milhões no total). No entanto, entre 2009 e 2015, o investimento da prefeitura em programas sociais na região foi de R$ 303,63 milhões — metade do investimento realizado com a Força de Pacificação em um ano e três meses.

SERVIÇO:
Marcha Contra a Violência na Maré
Quando: dia 24 de maio, a partir das 13:00hs.
Onde: Concentração na Praça do Parque União e em frente à Associação de Moradores do Conjunto Esperança

Reportagem da estagiária Luana Benedito, com supervisão de Thiago Antunes
http://odia.ig.com.br