quarta-feira, 17 de maio de 2017

João Santana rebate declarações de Cardozo e reafirma que soube de sua prisão por Dilma.

Marqueteiro emitiu nota em que classifica afirmação de Cardozo como “grotesca e absurda”.


O publicitário e ex-marqueteiro do PT João Santana refutou declarações do ex-ministro da Justiça Eduardo Cardozo de que haveria contradições na sua delação premiada ao Ministério Público Federal (MPF) e na de sua esposa, a também marqueteira Mônica Moura, sobre aviso feito pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) de iminente prisão do casal, suspeito de participar de pagamentos ilícitos descobertos pela Operação Lava Jato. As declarações do ex-ministro foram realizadas em entrevista aos repórteres Mariana Sanches e Ségio Roxo, do jornal O Globo. Santana chamou de “grotesca e absurda” as afirmações de Cardozo.

“A grotesca e absurda entrevista do advogado José Eduardo Cardozo ao Globo faz-me romper o compromisso, que tinha comigo mesmo, de somente tratar dos termos das colaborações, minha e de Monica, no âmbito da Justiça”, declarou o marqueteiro. “Antes, sabíamos, por informações da presidente Dilma, que a prisão seria iminente. Seu último informe veio no sábado, em e-mail redigido com metáforas, cuja cópia está anexada aos termos da nossa colaboração”, ressaltou.

João Santana cuidou das campanhas de Lula à reeleição de Lula em 2006 e de Dilma, em 2010 e 2014. “Se não estivéssemos sendo informados da iminência da prisão, porque chamaríamos, na sexta, 19 de fevereiro, o nosso então advogado, Fabio Tofic, para que viesse às pressas a S. Domingos?”, questiona o marqueteiro, que retornou ao Brasil no dia 26 de fevereiro de 2016, um dia após a decretação de sua prisão e de sua esposa.

Por meio de delação premiada, Mônica Moura contou aos procuradores que criou uma conta secreta de e-mail a pedido de Dilma para que pudessem conversar e os manter informados sobre os avanços da Operação Lava Jato sobre o casal. A comunicação era realizada nos rascunhos, não havia envio de e-mails. Os recados eram lidos, apagados e respondido no mesmo campo ‘rascunho’. Apenas Dilma, Mônica e João Santana sabiam a senha e acessavam para ver se havia novo recado nos rascunhos.

Santana e Mônica firmaram acordo de colaboração premiada com a força-tarefa da Operação Lava Jato no início deste ano. Os dois foram condenados a um ano e seis meses em prisão domiciliar e mais um ano e seis meses em regime semiaberto devido ao recebimento de recursos ilícitos da Odebrecht em contas no exterior.

O marqueteiro classificou ainda como “mentira deslavada” a declaração de Cardozo de que tenha misturado à contabilidade da campanha de Dilma pagamentos da Odebrecht relativos a trabalhos que comandou em outros países. Na entrevistas que deu, o ex-ministro questiona se o dinheiro recebido da Odebrecht, por meio de caixa dois pelo marqueteiro, seria mesmo pagamento de campanha de Dilma ou se seria de outras situações, sob o argumento de que se fosse de outra situação o marqueteiro não conseguiria delação premiada.

Em um dos trechos da entrevista concedida ao jornal, Cardozo diz que a orientação de Dilma nunca foi de ter caixa dois. “Eu nunca soube disso. Embora, historicamente, no Brasil se tenha caixa dois desde que Pedro Álvares Cabral chegou aqui”, ponderou. “De forma cínica diz que não houve caixa dois nas campanhas de 2010 e 2014. Pra cima de mim, José Eduardo?”, rebateu João Santana. Confira abaixo íntegra da nota divulgada por João Santana nesta quarta-feira (17):

"NOTA DE ESCLARECIMENTO"

A grotesca e absurda entrevista do advogado José Eduardo Cardozo ao Globo faz-me romper o compromisso – que tinha comigo mesmo – de somente tratar dos termos das colaborações, minha e de Mônica, no âmbito da Justiça.

Desta forma, digo de forma sucinta (e reservo detalhes para momentos apropriados) :

1. Não há nenhuma contradição naquilo que Mônica e eu afirmamos sobre as informações recebidas, em fevereiro de 2016, a respeito de nossa prisão iminente. Quando disse que soube da prisão pelas câmeras de segurança de minha casa – acessadas por computador desde a República Dominicana – referia-me ao óbvio : foi naquele momento, na manhã do dia 22 de fevereiro, que eu vi, de fato e realmente, a prisão concretizada.

2. Antes, sabíamos, por informações da presidente Dilma, que a prisão seria iminente. Seu último informe veio no sábado, em e-mail redigido com metáforas, cuja cópia está anexada aos termos da nossa colaboração.

3. Apenas para ficar em dois indícios não devidamente noticiados: se não estivéssemos sendo informados da iminência da prisão, porque chamaríamos, na sexta, 19 de fevereiro, o nosso então advogado, Fabio Tofic, para que viesse às pressas a S. Domingos?

4. Por que cancelaríamos nosso retorno ao Brasil, dias antes, com passagem comprada e com reserva já confirmada? (A Polícia Federal chegou a esse detalhe através de investigação feita na época).

5. Com relação ao Caixa-2, o advogado Cardoso insiste também na versão surrada expressa a mim, desde 2015, pela presidente Dilma, de que o “altíssimo custo” oficial da campanha seria uma prova vigorosa de que não houvera “pagamentos não contabilizados”. Este argumento não se sustenta para qualquer pessoa que conheça os altos custos e a realidade interna das campanhas.

6. Diz, também, de forma enviesada que haveria uma espécie de acordo tácito entre eu e Marcelo Odebrecht para misturar caixa dois das campanhas do exterior com a campanha de Dilma. É uma mentira deslavada: nos nossos depoimentos está bem discriminado o que são campanhas do exterior e campanhas do Brasil.

7. De forma cínica diz que não houve caixa dois nas campanhas de 2010 e 2014. Pra cima de mim, José Eduardo?

8. Para finalizar, afirmo que as únicas vezes que menti sobre a presidente Dilma – e isso já faz algum tempo – foi para defendê-la. Jamais para acusá-la. Lamento por tudo que ela, Mônica e eu estamos passando. A vida nos impõe momentos e verdades cruéis.

JOÃO SANTANA”

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