quarta-feira, 12 de abril de 2017

Para escapar de ser preso, Sérgio Côrtes teria agendado até pré-cirurgia

Gravações indicam que o ex-secretário tentou combinar até as delações.


Sérgio Côrtes e dois empresários foram presos pela Operação Lava Jato
na terça-feira. Eles são acusados de fraude em licitações e corrupção.
ADRIANA CRUZ,
BRUNA FANTTI,
PALOMA SAVEDRA
E PAOLA LUCAS

Rio - Preparado para a prisão, Sérgio Côrtes não poupou esforços para enganar a Justiça Federal. Três gravações entregues por César Romero ao Ministério Público Federal revelam as tramoias. Em um dos diálogos, Côrtes tentou combinar delação com Romero para esconder informações relevantes sobre contratos da época do Into e do esquema de licitação na Secretária Estadual de Saúde. Entre os citados na conversa, estão:
O filho de Sérgio Cabral, Marco Antônio; 
Carlos Miranda, operador de Cabral; 
Sérgio Eduardo Vianna Júnior, cunhado de Côrtes; 
Cláudio Vianna, irmão de Romero, 
e Miguel Iskin, presidente da Oscar Iskin.

Côrtes preparava ainda álibi para não ficar preso. Segundo o juiz Marcelo Bretas, Côrtes se desfez de patrimônio, como obras de arte. “Teria cirurgia de coluna pré-agendada para, acaso fosse decretada a sua prisão, ter munição para requerer uma liberdade provisória para realizar o tratamento”, destacou Bretas na decisão. De acordo com o magistrado, outro que estava se desfazendo de patrimônio era o empresário Miguel Iskin.

Desde junho de 2014, Côrtes fazia parte da diretoria da Rede Copa D’or na área médico-assistencial, mas foi desligado ontem. Os advogados Gustavo Teixeira e Rafael Kullmann, que representam Côrtes, informaram em nota que “seu cliente tem todo interesse em elucidar os fatos atribuídos a ele e que no momento oportuno provará sua inocência.”


Já a Oscar Iskin alegou que não teve acesso aos autos, mas nega o envolvimento em práticas ilícitas. Côrtes e Gustavo Estelitta, que têm curso superior, saíram da Superintendência da Polícia Federal para Bangu 8, onde Cabral está preso. Já Miguel Iskin, que não tem diploma, foi para o presídio Bandeira Stampa, onde está o empresário Eike Batista. Nesta terça, em frente à Polícia Federal, bombeiros comemoraram a prisão de Côrtes.

Fama era de ‘bom gestor’
O esquema de corrupção na Secretaria estadual de Saúde foi montado logo que Sérgio Côrtes assumiu, nomeado pelo então governador Sérgio Cabral. À época, Cabral anunciou que ele combateria a corrupção. A pecha de ‘honesto’ levou Côrtes a ser cotado para o Ministério da Saúde no governo Dilma Rousseff, por indicação de Cabral. Mas o projeto fracassou. A fama de bom gestor começou a ser edificada ainda no Into. Côrtes estava entre os integrantes do encontro conhecido como a “farra dos guardanapos”. Foto feita em 2009, que veio a público em 2012, em Paris, França, mostra ele e outros acusados de corrupção confraternizando e usando guardanapos amarrados na cabeça.


Ex-secretário de Saúde, Sérgio Cortes (esq) em Mônaco com Cabral.

Na imagem, Côrtes aparece com o dono da empreiteira Delta Construções, Fernando Cavendish, e o secretário de Governo durante os mandatos Cabral, Wilson Carlos. Cavendish, que foi preso na operação Saqueador, cumpre prisão domiciliar, e Wilson está preso em Bangu 8.

Pregões eram combinados
Contas em paraísos fiscais e nos Estados Unidos eram usadas para camuflar o esquema de corrupção. Segundo as investigações, César Romero informou que o ‘Projeto Suporte’ expandiu o esquema. Isso porque o Into obteve, de acordo com a Portaria nº 401 do Ministério da Saúde (gestão do ex-ministro Humberto Costa, em 2005), o poder de adquirir equipamentos de alta complexidade para unidades federais espalhadas pelo país. Segundo Romero, o pregão era viciado porque os requisitos exigidos para as empresas vencerem a licitação eram combinados previamente com os fornecedores. A partir daí, o diretor de vendas da Oscar Iskin, Marco Almeida e seu irmão, Marco Vinicius, e Gaetano organizavam a fraude licitatória. Os acusados vão responder por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As penas variam de dois a 12 anos prisão.

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