quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Eleições: diante do descrédito com a política, populismo e esquerda avançam

Também é grande o número de eleitores 
que vão votar em branco ou nulo.



Jornal do Brasil

Às vésperas das eleições municipais, que vão eleger prefeitos para os mais de 5 mil municípios do país no dia 2 de outubro, os dados das pesquisas eleitorais encomendadas pelos veículos de comunicação ao Ibope revelam a preferência do brasileiro por líderes populistas, partidos de esquerda e insatisfação com os rumos da política nacional. Dentre as 25 capitais analisadas, em dez delas a soma do número de votos brancos, nulos e de indecisos está acima do segundo colocado nas pesquisas. Políticos com agendas conservadoras e projetos econômicos de direita não vêm tendo sucesso. O Rio de Janeiro é ótimo exemplo tanto da ânsia por governos com líderes carismáticos e populares quanto da insatisfação política. Com propostas sociais sendo o carro chefe de sua campanha, Marcelo Crivella, do PRB, lidera as pesquisas, com 31% das intenções de voto. Dono de um discurso popular que apela às classes mais pobres, o político lidera a corrida com folga. Marcelo Freixo, do PSOL, e Pedro Paulo, do PMDB, ambos com 9%, vêm logo atrás. Porém, 23% do eleitorado deve votar nulo, branco, ou ainda está indeciso.

Celso Russomanno, também do PRB de Crivella, lidera não só nas pesquisas como nas doações de campanha, em São Paulo. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o deputado já recebeu R$ 3.700.000,00 em contribuições financeiras. Com 30% das intenções de voto, o candidato é apresentador de programas populares na Rede Record. Como deputado federal, lutou contra o projeto da lei da Ficha Limpa, em 2010.

Marta Suplicy, candidata à prefeitura de São Paulo pelo PMDB, vem em segundo, com 20%. Filiada ao PT de 1981 a 2015, Marta declarou apoio ao atual rival Fernando Haddad (PT) nas eleições à prefeito em 2012. “Eu e Lula vamos estar ao seu lado”, disse, durante campanha. Três anos depois – e após 33 anos de militância - Marta abandonou o partido com a justificativa de que o PT teria renegado seus princípios e programas partidários originais, de acordo com sua carta de desfiliação publicada na época. Contudo, em entrevista à Folha de S. Paulo, na segunda-feira (19), a candidata disse nunca ter se colocado como alguém de esquerda.

Russomanno e Marta estão à frente de João Doria, do PSDB. Representante de interesses da elite paulistana tradicional, o tucano, que possui 17% na pesquisa divulgada dia 14 de setembro, quer introduzir políticas conservadoras, como o fim das pastas voltadas a mulheres, negros, jovens, pessoas com deficiência e LGBT. Doria foi abandonado por um grupo de tucanos autodenominados “peesedebistas autênticos” um dia depois da afirmação de Marta Suplicy à Folha de que nunca se colocou como alguém de esquerda. O grupo declarou apoio à candidata, segundo o jornal. Este não é o primeiro movimento de aproximação entre políticos do PSDB e do PMDB. Segundo o blog da UOL Coluna Esplanada, José Serra (PSDB-SP) está cada vez mais próximo do PMDB, e pode disputar as eleições presidenciais de 2018 pelo partido de Michel Temer e Eduardo Cunha.

Na Região Sul, o quadro é semelhante. Apesar do impeachment de Dilma Rousseff e das acusações contra Lula, o PT está em segundo lugar em Porto Alegre: o candidato Raul Pont tem 19% das intenções de voto. Com 22%, o líder nas pesquisas, Sebastião Melo, do PMDB, tem como vice Juliana Brizola, neta do ex-governador do Rio.

Em Curitiba, a insatisfação popular é palpável. 11% dos eleitores vão votar nulo ou branco e outros 11% estão indecisos ou não opinaram. O líder das pesquisas, o candidato do PMDB Rafael Grecca, não está muito à frente desses 22% de descontentes: o candidato tem apenas 28% de possíveis eleitores.

Gean Loureiro, do PMDB, lidera com folga em Florianópolis, com 35%. A curiosidade sobre o candidato é o tamanho de sua coligação. Ela é composta por PSDB, PR, PDT, PTB, DEM, SD, PRB, PSC, PPL, PTN, PRP, PTC, PRTB, além do próprio PMDB.

Nordeste
No Nordeste, a tendência se repete. João Paulo, do PT, está em segundo nas pesquisas no Recife, com 27%.

Em Maceió, o candidato do PSDB, Rui Palmeira, lidera com 35%. Apesar de ser de um partido de direita, o tucano já adotou medidas populistas, quando reduziu o salário de secretários, superintendentes e cargos comissionados, além do próprio pagamento, em 2013.

Em Aracaju, Edvaldo Nogueira do PCdoB lidera com folga, com 28% de intenções de voto. Edivaldo Holanda Júnior, do PDT em coligação com o PT, lidera com 37% em São Luís.

Em Salvador, ACM Neto, do Democratas, lidera com 68% e deve vencer a disputa ainda no primeiro turno. Alice Portugal, do PCdoB, vem em segundo, com apenas 10% das intenções de voto. O PT, que recebeu 67,28% dos votos em Salvador nas eleições presidenciais de 2014, está apoiando Alice. ACM Neto apoiou Dilma Rousseff nas últimas eleições e disse em entrevista ao SBT, ainda em 2015, que nunca apostou suas fichas no impeachment.

Norte e Centro-Oeste
Entre as dez capitais dos estados do Norte e Centro-Oeste, em duas o PT lidera: em Rio Branco, com o candidato Marcus Alexandre tomando a dianteira, com 57% (o candidato do partido de Marina Silva, natural da cidade, tem 1% nas pesquisas), e em Porto Velho, cidade na qual Roberto Sobrinho lidera, com 22%. O PSOL está na frente em Belém e Cuiabá. Edmilson, com 37% e Procurador Mauro, com 30%, respectivamente.

Populismo avança no Brasil
O profundo descrédito por parte dos eleitores com a classe política - que vem se intensificando nos últimos anos com a sequência de escândalos de corrupção - e o desinteresse em relação à política evidenciado pela grande quantidade de votos nulos, brancos, e indecisos nas pesquisas, geram um perigoso vácuo de poder, que pode ser facilmente preenchido por líderes carismáticos e populistas. Em entrevista para a Agência do Senado, o filósofo francês Francis Wolff disparou: “Quando é governado por um tirano, o povo sonha em conquistar o poder. No entanto, ao alcançar a democracia, recusa-se a exercê-lo e abandona a política.” Para o filósofo, esse desinteresse favorece a ascensão de “políticos profissionais”, que, por não serem cobrados, buscariam aprovar ou impor medidas alheias às necessidades reais do povo. Com discursos demagógicos, esses candidatos venderiam a ideia de que todos os governantes são corruptos, menos ele. Segundo Wolff, assim que ditaduras nascem.

O afastamento do jovem da política partidária foi comprovado pela pesquisa Agenda Juventude Brasil de 2013, realizada pela Secretaria Nacional da Juventude com apoio da Unesco Brasil. A pesquisa analisou o perfil e opinião de jovens brasileiros naquele ano sobre vários aspectos, inclusive na política. Foi demonstrado que, apesar de 54% dos entrevistados considerarem a política “muito importante”, 88% deles afirmaram que nunca fariam parte de uma sigla política.

Dessa forma, com influência da mídia, pautas populistas vêm ganhando força no país, como a questão da maioridade penal. Segundo pesquisa do Datafolha de 2015, 87% dos brasileiros querem a redução de 18 para 16 anos, pauta amplamente defendida por programas de TV como o Cidade Alerta, apresentado pelo candidato favorito em São Paulo, Celso Russomanno. De acordo com a coluna Radar Online, da Veja, o candidato do PRB votou a favor da redução, apesar de se dizer contra. “Sou candidato a prefeito de São Paulo e a maioria é a favor. Não posso votar contra”, disse Russomanno.

Chama atenção, por exemplo, a associação de grupos assistencialistas, religiosos, ou até mesmo milicianos com políticos, que trabalham com pautas afastadas das reais necessidades da população, principalmente no Legislativo. Em 2012, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro tinha pelo menos metade dos 51 vereadores ligados a esses grupos, segundo publicação de O Globo em 2010.

Já as eleições de 2014 possibilitaram a ascensão e subsequente predominância da bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), que configurou um recuo na pluralidade e no debate sobre as problemáticas sociais e democráticas do país. Avanços em discussões ambientais, de minorias, e até o laicismo do estado ficaram ameaçados desde o último pleito. Projetos de lei como a PL 4148/2008, que permitiu a ocultação do símbolo de transgênicos, a PEC 215/2000, de demarcação de terras indígenas, a PL 6583/2013, do estatuto da família e a PEC 99/2011, que daria mais poderes às igrejas, são indícios que comprovam esse retrocesso.

Poder paralelo
Concomitantemente, um poder paralelo vem mostrando sua força e, cada vez mais, infiltra perigosamente seus tentáculos no âmbito do Legislativo e do Executivo. Ligações de vereadores do interior com facções criminosas são cada vez mais freqüentes e perigosas. Na Baixada Fluminense, inclusive, está em curso uma investigação que apura o assassinato de 13 pessoas envolvidas com política, entre novembro de 2015 e agosto de 2016, Como se não bastasse, o poder do crime mostra sua força até mesmo de dentro das cadeias. No Rio Grande do Norte e em Cuiabá, criminosos comandaram recentemente uma onda de violência que durou vários dias e deixou dezenas de ônibus queimados. E o pior, as ordens partiam sem obstáculos de dentro das cadeias.

Diante do descrédito com a política, da ascensão do populismo, da falta de segurança e do acirramento da criminalidade associada ao Legislativo e ao Executivo, o país caminha para um perigoso cenário de falta de perspectivas. E, diante deste quadro, o futuro pode ser ainda mais conflituoso e conturbado.

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