sábado, 2 de julho de 2016

'Meu neto foi assassinado por quem não deveria usar farda', diz avô de jovem

Adolescente do Borel levava pipoca quando foi baleado. 
Moradores acusam PM de confundir pacote com drogas.


Avô de jovem morto no Borel chora ao falar do neto.
ADRIANO ARAÚJO 
E MARLOS BITTENCOURT

Rio - Consternado, o avô do adolescente Jhonata Dalber Matos Alves, de 16 anos, morto com um tiro na cabeça enquanto carregava um saco de pipoca na manhã da sexta-feira durante ação da PM no Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte, acusa a policia de mentir e ressalta a dura realidade das favelas do Rio. "Meu neto foi assassinado por homens que não deveriam estar usando aquela farda. A polícia está totalmente despreparada para agir. Ela mata. Não quer saber quem está morrendo", falou Antônio Trigo Alves, de 66 anos. Antônio é avô materno de Jhonata e estava em choque. "Não houve confronto. É mentira deles. meu neto foi ao morro na casa da tia pegar pipoca porque hoje é a festa da escola do irmão dele", contou, balbuciando. "Não queiram sentir o que eu e minha filha estamos sentindo. Você cria um filho, um neto e ele acaba dessa forma", disse.


Os moradores acusam os PMs confundirem o pacote com drogas e atirarem no jovem. Ainda não há informações sobre o enterro de Jhonata. Antônio revelou que o neto era estudioso e tinha planos para o futuro. "Era cheio de sonhos, queria estudar e ter um bom emprego para ajudar a mãe", disse. "Por que meu deus? Por que a polícia fez isso com ele?" Questionada sobre a denúncia dos moradores de execução, o comando da UPP do Borel não respondeu às perguntas feitas pela reportagem e limitou-se a dizer que posicionamento oficial é que os policiais sofreram um ataque de criminosos e um "homem" acabou baleado. O jovem chegou a ser levado em uma viatura da PM em estado grave ao Hospital do Andaraí, mas ele não resistiu aos ferimentos e já chegou morto na unidade. (Leia no final da matéria a nota na íntegra)


Jhonata foi morto após levar um tiro na cabeça no Borel. Moradores acusam policiais.

De acordo com o delegado Fabio Cardoso, titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DH-Capital), um dos policiais que participou da ação contou em depoimento que Jhonatan estava armado e atirou neles, mas nenhuma arma foi apreendida ou encontrada durante a perícia feita pela Polícia Civil, durante a madrugada. O pacote de pipoca também não teria sido encontrado, mas Cardoso minimizou a sua importância. "O saco de pipoca é o que menos interessa. O que interessa é que um policial disse ele que estaria com uma arma, e ela não foi encontrada. O próximo passo é verificar se de fato houve confronto entre policiais e traficantes e se Jhonatan estava envolvido no confronto e atirou", disse. Segundo o delegado, já foram ouvidos policiais da UPP, tanto os que estavam envolvidos diretamente no crime tanto outros que trabalhavam no horário do ocorrido. As armas dos PMs envolvidos na ação foram apreendidas. Amigos que estariam com o jovem e outros moradores foram ouvidos. Desesperado, um tio de Jhonata disse que ainda não entendeu o que aconteceu. "Eu não sei direito o que aconteceu, mas os moradores disseram que os policiais já chegaram atirando e mataram meu sobrinho", disse à reportagem do DIA.



Um vídeo enviado ao WhatsApp do DIA (98762-8248) mostra o desespero após o jovem ser baleado. Nas imagens, os policiais carregam o jovem para a viatura enquanto moradores gritam indignados com a situação. "Covardes", "É tudo o que vocês sabem fazer" e "Mataram o menino" são alguns dos gritos escutados.

Nota da Coordenadoria de Polícia Pacificadora
"Segundo o comando da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Borel, dois homens em uma motocicleta foram abordados na localidade conhecida como Curva do Horácio, na noite da quinta-feira, 30/06. Antes da parada, eles sofreram uma queda e um dos ocupantes, de acordo com os policiais, estava armado e atirou contra a equipe. Em seguida, suspeitos em um beco próximo ao local, também armados, iniciaram um confronto com os agentes. Um homem foi baleado e socorrido pelos policiais para o Hospital do Andaraí. O outro ocupante da moto e os demais suspeitos conseguiram fugir. Moradores da comunidade chegaram a interditar as Ruas São Miguel e Conde de Bonfim e atiraram pedras e garrafas contra as equipes. O Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) foi acionado. O policiamento foi reforçado com o apoio de outras UPPs e também do 6º BPM (Tijuca). A Divisão de Homicídios está investigando o caso."



Policiamento foi reforçado no Morro do Borel após morte do jovem.

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