quarta-feira, 15 de junho de 2016

Tradição das serestas atrai turistas para Conservatória

Distrito de Valença sedia a sexta etapa 
do Mapa do Comércio esta semana.


A realização de serestas ao ar livre é um dos orgulhos 
dos moradores e comerciantes do distrito de Valença.
HERCULANO BARRETO FILHO

Rio - As noites de sexta-feira e sábado em Conservatória (Valença), costumam ser embaladas ao som de serenatas, num canto sob o luar. Às 23:00hs., cerca de dez seresteiros saem da Travessa Geralda Fonseca e atravessam as madrugadas ao som do violão, flauta e cavaquinho. No último sábado de agosto, a seresta é feita a cavalo, no encontro dos seresteiros. O local é conhecido como a Rua dos Seresteiros, ostentando um monumento do seresteiro José Borges de Freitas Neto, um dos criadores do Museu da Seresta. Uma das poucas regiões do país que conserva a cultura das tradicionais serestas, popularizadas nas décadas de 40 e 50 no interior. Cultura perdida nas últimas décadas, que criou uma identidade singular em Conservatória, atraindo turistas do país e até mesmo do exterior. Uma pesquisa feita pela UFF no ano passado apontou que 87% dos turistas de Conservatória vão ao local apenas por causa das serestas. “Tudo aqui gira em função da serenata. É uma coisa simples e modesta que a gente faz, mas é o que traz o turista. Já vieram emissoras do Japão, Alemanha, Rússia, Portugal e Argentina para acompanhar as serestas de Conservatória. Já me reconheceram até em Bariloche”, sorri o seresteiro Edgard Carielo Vilela, responsável pela trilha sonora nas noites e madrugadas do distrito.

Alternativas
Para Valença, que sedia a sexta etapa regional do Mapa Estratégico do Comércio, do Sistema Fecomércio RJ, as tradicionais serestas representam mais uma oportunidade para movimentar o turismo local. No evento, empresários discutem alternativas de negócios na região, entre esta quinta e sexta-feira. “É uma ideia interessante porque a seresta traz o turista para cá. E o comércio pode se beneficiar disso”, analisa o empresário Marco Torres, presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sicomércio) de Valença.

Noites são alegres a 138 anos
As serenatas começaram a ser realizadas em Conservatória há 138 anos, em pleno Ciclo do Café, mantido graças à mão de obra escrava nas fazendas da região. Os primeiros seresteiros, aliás, eram os tropeiros que circulavam com café e gado, entre Minas Gerais e a região Sul Fluminense, ainda conhecida como Vale do Café. Os músicos de hoje participam de serestas e saraus nessas mesmas fazendas, que também se tornaram atração turística para quem se interessa na história da região. E acrescentam uma poética e melódica trilha sonora em um pacato distrito de Valença. Os seresteiros não se apresentam em bares ou em shows abertos ao público. Se apegam a uma tradição que mantém a identidade cultural de Conservatória, difundida em todo o país. “O nosso palco é a rua”, faz questão de deixar claro o seresteiro Edgard Carielo Vilela. A tranquilidade no distrito combina com as noites de serenata, animando turistas.

Nome de músicas nas residências
O projeto ‘Em toda casa uma canção’ começou na década de 40, quando os seresteiros começaram a fixar plaquetas metálicas em frente às casas com os nomes das músicas e dos compositores das 12 músicas de amor mais tocadas na época. Hoje, já são 403 canções. Entre as citadas, as canções de Roberto Carlos estão entre as mais famosas, com ‘Detalhes’ e ‘Cavalgada’. Mesmo assim, para os seresteiros, ele não é o rei. Está atrás de Cândido das Neves, o mais citado, com mais de 10 composições. O projeto atraiu gente de respeito na MPB, como Fagner, Dorival Caymmi e Beth Carvalho. Se algum morador pisca a luz de uma casa, os músicos param e fazem uma seresta ali mesmo. É uma senha guardada por quem dá uma identidade peculiar a uma localidade pacata, habitada por 4 mil almas musicais que respiram poesia. Na década de 40, as mulheres não podiam abrir a janela. Piscavam a luz para demonstrar que estavam ouvindo. Nos 50, abriam a janela. “Na década de 60, pulavam a janela e acompanhavam os seresteiros”, diz Edgard.

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