segunda-feira, 6 de junho de 2016

Polícia apura funks ofensivos a jovem vítima de estupro coletivo na Zona Oeste

Com letras no estilo 'proibidão', as músicas sugerem 
que adolescente teria aceitado drogas em troca de sexo.

Para psicóloga, vida da menina está exposta e marcada para sempre.
DIEGO VALDEVINO

Rio - A Polícia Civil vai analisar a origem de pelo menos dois funks divulgados nas redes sociais que citam a adolescente de 16 anos vítima de estupro coletivo no Morro do Barão, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio, no dia 21 de maio. Com letras no estilo ‘funk proibidão’, as músicas sugerem que a jovem teria aceitado drogas em troca de sexo. Em alguns trechos, supostos traficantes debocham dela. Em um deles, havia neste domingo mais de 46,6 mil visualizações de internautas. “Com certeza, se houver algum crime ou apologia a um fato criminoso, a Polícia Civil vai investigar e responsabilizar os criminosos”, afirmou o diretor-geral das delegacias especializadas, Ronaldo Oliveira.

Uma das montagens de um funk, intitulado ‘Não fala da ... fortalece a tropa da Barão’, publicada em 27 de maio, a menina é enaltecida de forma irônica. ‘Tanta mina pra falar, vocês quer falar da ... (sic)”, diz trecho da música, que ainda cita algumas localidades de menores supostamente envolvidos no crime, como Barão, Bairro Treze, Assembleia, Baronesa e Meneses. Fotos da jovem portando armas de grosso calibre também são vistas nas montagens do funk, que ainda divulga um muro com apologia ao tráfico. O local seria chefiado pelo traficante Luis Cláudio Machado, o Marreta, preso em Assunção, no Paraguai, em dezembro de 2014. Ele seria também o chefe da maior facção criminosa do Rio, o Comando Vermelho (CV). Ainda há outro funk com mais de 7 mil visualizações. “Em troca de loló, olha o que essa mina fez. Ela não é santa, não...”, lembra o trecho do funk, que também exibe um áudio de moradores acusando a vítima de consentir o estupro. No funk, um áudio atribuído à adolescente também faz parte da música.

Para a psicóloga da Santa Casa de Misericórdia do Rio Glauce Corrêa, a vida da menina está ainda bem mais exposta com os funks divulgados na internet. “É difícil lidar com isso tudo, pois ela tem um filho pequeno. A vida dela está bem exposta e marcada para sempre, tanto que deve mudar de nome. Ela também se expôs muito ao publicar fotos pessoais no Facebook. Deveria saber quem são seus amigos”, comentou.

Perícia do celular deve sair nesta segunda-feira
A Polícia Civil deve divulgar hoje o resultado da perícia do celular de Raí de Souza, de 22 anos, que teria feito o vídeo da jovem aparentemente desacordada. De acordo com investigadores, a partir da análise do celular, a polícia realizará diligências nesta segunda-feira. Inicialmente, Raí chegou a afirmar que o aparelho havia sido jogado fora. Depois, admitiu ter divulgado o vídeo. No entanto, mudou a versão e alegou que as imagens teriam sido gravadas por um traficante, conhecido como Jefinho, que já teve a prisão pedida pela polícia. Raphael Assis Duarte Belo, 41, também está preso por suspeita de ligação com o estupro. Ele aparece em uma foto ao lado da jovem nua.

Mais de 400 calcinhas
O Rio de Paz promoverá um ato público contra o abuso sofrido pelas mulheres nesta segunda-feira, a partir das 06:00hs., na altura da Avenida Princesa Isabel, na Praia de Copacabana. Durante a manifestação, 420 calcinhas, doadas por uma grife de lingerie, estarão estendidas na areia, representando a quantidade de mulheres estupradas a cada 72 horas no Brasil. Por ano, são cerca de 50 mil. Além disso, estarão expostos painéis com imagens do fotógrafo Marcio Freitas sobre o tema ‘Nunca me calarei’. Nas fotos, 20 modelos retratam a angústia sofrida por mulheres vítimas de abuso. “Tão importante quanto combater o abuso contra a mulher é cobrar ações preventivas do poder público. A cada dia torna-se mais necessária a implementação de políticas de educação e proteção em comunidades de baixa renda, locais onde se encontra a maior parte das mulheres em estado de vulnerabilidade social” afirmou o fundador do movimento Rio de Paz, Antônio Carlos Costa.

http://odia.ig.com.br/