quinta-feira, 16 de junho de 2016

Para base, saída de Alves é 'oportuna'; oposição vê situação 'dramática'

Sérgio Machado disse que ministro do Turismo recebeu propina de R$ 1.550.000,00. Alves classificou como 'levianas' e 'irresponsáveis' as declarações do delator.


Filipe Matoso
Do G1, em Brasília

O pedido de demissão do ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB), nesta quinta-feira (16) repercutiu imediatamente no Congresso Nacional. Parlamentares da base aliada ao governo elogiaram a postura do presidente em exercício Michel Temer que, segundo eles, toma "providências" diante de denúncias. A oposição, porém, vê uma situação "dramática" do atual governo, já que Alves é o terceiro ministro a cair em pouco mais de um mês por suposto envolvimento na Operação Lava Jato. Em depoimento à Procuradoria Geral da República (PGR), o ex-presidente da Transpetro afirmou que repassou a Henrique Alves R$ 1.550.000,00 em propina entre 2008 e 2014. Os recursos eram entregues por meio de doações oficiais, mas eram provenientes, conforme o delator, de propina dos contratos da subsidiária da Petrobras. De acordo com Sérgio Machado, a propina foi paga ao ministro do Turismo da seguinte forma: R$ 500.000,00 em 2014; R$ 250.000,00, em 2012 e R$ 300.000,00 mil em 2008. Os valores foram repassados, segundo ele, pela Queiroz Galvão. Outros R$ 500.000,00 mil foram pagos em 2010 a Alves, pela Galvão Engenharia, de acordo com a delação.

Para o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), o pedido de demissão de Alves foi "oportuno" porque, por mais que no futuro ele consiga comprovar que não teve participação no esquema de corrupção na Petrobras, o peemedebista teve "responsabilidade" em não causar nenhum "desvio de discussão" no governo. “O modelo implantado pelo atual governo é diferente do anterior. Ou seja, qualquer suspeita, ou denúncia, mesmo que ele não tenha amanhã a culpabilidade do que foi dito, ele tem que ter a responsabilidade e o gesto maior de não confundir problemas de ordem pessoal com problemas de governo. O pedido de demissão foi oportuno para que não venha amanhã causar nenhum outro desvio de discussão em relação a esse assunto”, disse Caiado, minutos após o pedido de demissão.

Situação 'dramática'
Para o líder do PT na Câmara, Afonso Florence (BA), porém, a situação do governo Temer é "dramática" com a queda de Alves. Ele disse ainda que, em sua opinião, o próprio presidente em exercício deveria "cair" devido às acusações feitas por Sérgio Machado contra ele. “É uma situação dramática do governo Temer, abalroado pela delação. Aquela passagem da gravação de Romero Jucá com Sérgio Machado e agora comprovado que tinha fundamento a conspiração [contra Dilma]. Não houve tempo de barrarem a investigação. O governo Temer está derretendo. [...] Claro que cabe direito de defesa, mas são muito robustas as acusações”, disse o petista. Para o líder do PMDB na Câmara, deputado, Baleia Rossi (SP), que é colega de partido de Henrique Eduardo Alves, o pedido de demissão é uma decisão "pessoal" que não deve prejudicar a governabilidade do atual governo. “Acho que foi uma decisão pessoal dele. Não vi ainda a justificativa. Quando um ministro pede demissão é um ato unilateral. Não acho que possa prejudicar a governabilidade e a prova disso é o trabalho na Câmara, que mostra que o governo Michel Temer tem muita credibilidade”, ponderou o peemedebista.

Terceira demissão
Outros parlamentares enfatizaram o fato de Alves ter sido o terceiro ministro a cair no governo interino de Michel Temer. O líder do DEM na Câmara, deputado Pauderney Avelino (AM), disse não ver com normalidade a demissão do terceiro ministro em pouco mais de um mês. "Mas a diferença do Michel Temer para o governo do PT é que ele toma providência. O PT não tomava providência, acobertava os mal feitos. Temer não parece disposto a fazer ação entre amigos", afirmou. "Se tem algum tipo de envolvimento, ele já disse que o próprio ministro tem que tomar a iniciativa de pedir demissão", complementou o deputado.

A senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), líder do partido no Senado, porém, disse considerar a demissão "lamentável", uma vez que todos os ministros que foram demitidos ou pediram demissão saíram do governo pela mesma razão. “Grande parte deles [os ministros] caem pela mesma razão, que são os envolvimentos nessas revelações das investigações vinculadas à Lava Jato. Agora, o mais lamentável de tudo é o fato de que o presidente interino [Michel Temer], que está envolvido diretamente, continua lá, como se nada tivesse acontecido. Pelo contrário, faz uma entrevista coletiva condenando aquele que revelou os fatos [Sérgio Machado]”, criticou a senadora.

Veja o que disseram outros parlamentares sobre o pedido de demissão:
Ivan Valente (SP), líder do PSOL na Câmara
“Vão cair mais ministros. É só o começo. O que eu acho é que é um governo que já nasceu podre, porque toda a cúpula do PMDB está envolvida na Operação Lava Jato e esses políticos tradicionais, de partidos que estão dando sustentação, uma grande parte foi financiada por empreiteiras. Então, vão aparecer novos nomes via Odebrecht, OAS e o conjunto de empreiteiras que fecharam delação premiada. É mais um enfraquecimento grave do governo. Um governo que não tem sustentação ética, que não tem nenhuma moral para pedir sacrifícios ao povo brasileiro. É muita grave.”

Rogério Rosso (PSD-DF), líder do PSD na Câmara
“Entendo que é um gesto importante do ministro Henrique para poder se defender e garantir a governabilidade do governo Michel Temer. É essencial que as regras da Constituição sejam cumpridas. Todos tem direito à defesa. [A demissão de ministros no governo interino] tem sido uma praxe importante, esse é o procedimento a ser adotado. Os citados na delação não são condenados. É necessário garantir o direito de defesa dos citados. [O pedido de demissão de Henrique] é uma demonstração de contribuição com a governabilidade. Temer, dessa forma, está mantendo a estabilidade em seu governo. Seria condenável se fosse o contrário”.

Deputado Silvio Costa (PTdoB-PE)
"Fui pego de surpresa com o pedido de demissão. O pedido dá substância e veracidade à delação de Sérgio Machado. Enquanto Temer desqualificou as informações de Machado, Henrique Eduardo Alves, a partir de sua saída, provou que a delação é consistente. Essa equação não fecha. O pedido sinaliza que Michel Temer deve renunciar, porque a delação contra o presidente interino foi mais contundente do que a fala contra Henrique. O ex-presidente da Transpetro deu mais detalhes do encontro que teve com Michel. Encaminhei requerimento para a Base Aérea e o Palácio do Planalto pra confirmar se Temer se encontrou ou não com o delator. O governo interino é refém de Eduardo Cunha e refém da Lava Jato".

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