quinta-feira, 9 de junho de 2016

Mulher de Cunha gastou dinheiro público com 'sapatos e roupas de grife', dizem procuradores

Força-tarefa afirma que o real responsável por movimentar 
a conta é presidente afastado da Câmara dos Deputados.


Marcelo Ernesto

Os promotores que atuam na força-tarefa que investigam as acusações da Lava-Jato disseram na tarde desta quinta-feira, em coletiva na cidade de Curitiba (PR), que Claúdia Cruz, esposa do presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), abriu a conta que recebeu dinheiro de offshores e “omitiu a informação das autoridades cabíveis”. Os valores eram usados para diversos tipos de compras de luxo. “Dinheiro público foi convertido em sapatos e roupas de grife”,afirmou o procurador Deltan Dellagnol. A denúncia contra Cláudia Cruz foi aceita pelo juiz federal Sérgio Moro nesta quinta-feira. Ela é ré por lavagem de dinheiro de mais de US$ 1.000.000,00 milhão provenientes de crimes praticados por Eduardo Cunha. Para o procurador Diogo Castor de Matos a esposa de Cunha sabia a procedência dos recursos usados por ela. “A senhora Cláudia Cruz tinha gastos incompatíveis com o salário de agentes políticos (…) tinha consciência das ilicitudes”, afirmou o procurador Diogo Castor de Matos. Ela era beneficiária de uma conta, segundo eles, que era abastecida com recursos ilícitos.

Sobre a filha deles, Daniele Cunha, Matos disse que ela era beneficiária do cartão de crédito de Claúdia e que, pelo menos a príncipio, não existem fatos que a liguem a abertura das contas. Apesar disso, há outros elementos que estão sendo levantados pelos investigadores. De acordo com a força-tarefa, a conta era abastecida por uma offshore com sede em Cingapura e movimentada na Suiça. Apesar do indiciamento de Cláudia, o real responsável pelo dinheiro, segundo os procuradores, é Cunha. “O verdadeiro dono desse dinheiro e o controlador por trás desse valor é o deputado federal Eduardo Cunha”, disse Dellagnol.

Investigações apontaram que Cláudia tinha plena consciência dos crimes que praticava e é a única controladora da conta em nome da offshore Köpek, na Suíça, por meio da qual pagou despesas de cartão de crédito no exterior em montante superior a US$ 1.000.000,00 num prazo de sete anos (2008 a 2014), valor totalmente incompatível com os salários e o patrimônio lícito de seu marido. Quase a totalidade do dinheiro depositado na Köpek (99,7%) teve origem nas contas Triumph SP (US$ 1.050.000,00), Netherton (US$ 165.000,00 mil) e Orion SP (US$ 60.000,00 mil), todas pertencentes a Eduardo Cunha. A defesa de Cláudia Cruz disse que ela responderá às imputações como fez até o momento, colaborando com a Justiça e entregando os documentos necessários à apuração dos fatos. Destaca que não tem qualquer relação com atos de corrupção ou de lavagem de dinheiro, não conhece os demais denunciados e jamais participou ou presenciou negociações ilícitas.

Outros acusados
Também são acusados nesta denúncia Jorge Luiz Zelada, ex-diretor da Área Internacional da estatal petrolífera, pelo crime de corrupção passiva; João Augusto Rezende Henriques, operador que representava os interesses do PMDB no esquema, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas; e Idalecio Oliveira, empresário português proprietário da CBH (Companie Beninoise des Hydrocarbures Sarl), pelos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Procuradores comprovaram a partir de documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça ao Brasil, informações obtidas por meio das quebras de sigilo bancário e fiscal e depoimentos de colaborações premiadas, o pagamento de propina num total de US$ 10.000.000,00 (cerca de R$ 36.000.000,00) para que a aquisição do campo de petróleo na África fosse concretizada. O negócio foi fechado em US$ 34.500.000,00, o que significa que quase um terço do valor total foi destinado a pagamento de vantagem indevida.

Entre os beneficiários da propina está o deputado afastado Eduardo Cunha, que tinha participação direta na indicação e manutenção de cargos na Diretoria Internacional da estatal, e que atuou de modo consistente para que o negócio fosse fechado. Para que o pagamento fosse efetuado sem deixar lastros, foi estruturado um esquema para que a propina passasse por diversas contas em nome de "laranjas" (empresas offshores sediadas em paraísos fiscais) antes de chegar nos destinatários finais e de ser convertido em bens.

Com Agência Estado
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