terça-feira, 28 de junho de 2016

Ex-capitão do Bope diz que polícia está quase perdendo o controle da situação

Em ação cinematográfica, Bando invadiu hospital Souza 
Aguiar e resgatou traficante. Especialistas criticam o governo.


O coronel Luiz Henrique Marinho Pires, subchefe Maior 
do Estado Operacional da PM, fala sobre a invasão.
O DIA

Rio - Após a invasão do Hospital Souza Aguiar por um bando armada para resgatar o traficante Fat Family, especialistas em segurança pública não pouparam críticas ontem aos governantes por conta da violência no Rio, às vésperas da Olimpíada. Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e consultor em segurança, diz que o grau de violência chegou a um patamar “muito grave” e que ameaça os Jogos. “A polícia está quase perdendo o controle total da situação. Sinceramente, diante do quadro atual, terroristas só não vão cometer atentados na Olimpíada se não quiserem”, afirma Storani, que completa: “A falência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), junto com o estado em geral, e a falta de investimentos em salários, reciclagem e contratações de mais policiais, ao longo dos últimos oito anos, comprometeram de vez a segurança dos cariocas e turistas”.


Coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV-Uerj), o sociólogo Ignácio Cano, concorda que “o momento é delicado”, principalmente diante da falência financeira do estado. “Infelizmente, a imagem que o Rio passa para o exterior, às portas das Olimpíadas, é de um território perigoso, dominado por criminosos, infestado de zika vírus e falido”, comenta Ignácio, sugerindo que, no caso de presos adoentados, sejam concentrados em apenas uma unidade de saúde. “É impossível manter segurança reforçada, sem estrutura para isso”, diz. Em entrevista recente ao DIA, o antropólogo Luiz Eduardo Soares — que foi secretário nacional de Segurança no primeiro mandato do ex-presidente Lula — criticou o estado, afirmando que “o culto em torno do clichê Cidade Maravilhosa, um dos maiores cartões postais do mundo, ofusca a busca por soluções para desafios, especialmente na área de segurança”.

Invasão de hospitais por bandidos é prática frequente
A ousadia de traficantes de invadir hospitais e postos de saúde no Rio de Janeiro para resgatar comparsas ou roubarem equipamentos já vem de longa data. Em junho de 2000, oito homens armados invadiram o Hospital Paulino Werneck, na Ilha do Governador, na Zona Norte, e resgataram o paciente Cristiano Bonfim de Jesus, de 27 anos, que havia levado um tiro de raspão na cabeça, horas antes, em tiroteio com policiais. A mesma unidade foi invadida outras duas vezes. Em outubro de 2015, a exemplo da anterior, a ação foi cinematográfica. Dez bandidos do Morro do Dendê, na Ilha, armados com fuzis, libertaram um homem identificado como Adalberto Santos, de 28 anos, que estava internado após levar dois tiros dos próprios traficantes. Na época, a suspeita era de que Adalberto, que não tinha antecedentes criminais, seria inimigo do bando, que o levou para matá-lo.

Em 2014, no dia 10 de novembro, 14 homens armados de fuzis e pistolas trancaram funcionários e pacientes no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, de onde resgataram o assaltante Johnny Luís da Silva, o Bebezão, um dos maiores ladrões de cargas do estado. O bandido tinha sido baleado em um confronto com a PM na Pavuna.

Há pouco mais de uma semana, bandidos também invadiram o Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap), em Niterói, e furtaram três equipamentos de endoscopia, avaliados em R$ 600.000,00. Em janeiro, o mesmo hospital já havia sofrido outro ataque de ladrões, que, na época, levaram dois aparelhos usados para o diagnóstico de várias doenças, inclusive câncer, e que juntos custaram R$ 200.000,00.

Com Adriana Cruz, Leandro Eiró, Bianca Lobianco, Francisco Edson Alves e Maria Inez Magalhães
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