quinta-feira, 5 de maio de 2016

Laudo aponta que esgoto foi causa de explosão em Coelho Neto

Até então, a principal suspeita era um 
vazamento de gás natural da CEG.


De acordo com informações preliminares da perícia, vazamento de esgoto gerou 
gases metano e sulfídrico, que se acumularam entre o solo e o piso do prédio.
MARIA INEZ MAGALHÃES 
E MARLOS BITTENCOURT

Rio - Informações preliminares do laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) apontam que a explosão do prédio no conjunto habitacional Fazenda Botafogo, em Coelho Neto, foi causada por gases sulfídrico e metano, oriundos de um vazamento de esgoto. Até então, a principal suspeita para a explosão do prédio, que deixou cinco mortos no dia 5 de abril, era um vazamento de gás natural da CEG. O ICCE descobriu que as substâncias estavam em um vão de 50 centímetros localizado entre o solo e o piso dos prédios. Com a ajuda de um medidor de volumes, os peritos retiraram alguns objetos que ainda tinham capacidade de causar estragos, dado o alto teor de gás sulfídrico encontrado neles. No começo da perícia, os especialistas ficaram intrigados, porque havia realmente um vazamento da CEG no prédio, no apartamento 108, de onde vinha o forte cheiro de gás relatado pelos moradores. O fato de três pessoas terem morrido na residência tornava coerente a versão que culpava a CEG. Contudo, o ICCE descobriu que as instalações do local não tinham explodido.

Foram cinco visitas do instituto ao conjunto habitacional. Um fator curioso foi decisivo para os peritos confirmarem a atual versão: a presença de dezenas de baratas mortas na área de origem da explosão, o que não ocorre em locais com gás natural, e sim quando há esgoto. Em entrevista coletiva para falar sobre outro laudo, o da ciclovia Tim Maia, o diretor do ICCE, Sérgio William Silva, foi perguntado sobre a divulgação das informações sobre a explosão no Fazenda Botafogo, mas preferiu não comentar. Ele avisou, porém, que o laudo deve ser concluído em “uma, no máximo duas” semanas.

Com a reviravolta nas investigações, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio, a Cedae, diz não ter sido procurada pelo ICCE e alega que não é responsável por sistemas de esgotos dentro de condomínios. A empresa considera “prematuro emitir considerações a respeito do relatório”, mas acha improvável atribuir ao esgoto a responsabilidade pela explosão, porque “não há registro de episódios como esse comprovados nem na Cedae ou congênere no país.” A Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Rio (Agenersa) informou que vai aguardar o laudo final. “Se o relatório apontar que a explosão foi causada por acúmulo de gases de esgoto, a Cedae será oficiada a se manifestar”, destacou. A CEG informou que a empresa não irá comentar sobre a revelação do ICCE, porque “o resultado da perícia está bem claro no laudo.”

Moradores desconfiam da nova hipótese e continuam sem gás
Moradores do conjunto habitacional ficaram revoltados com as novas informações sobre o motivo da explosão. Maria de Fátima Rodrigues Santos, filha de José Santos, morto na explosão, ficou revoltada com as hipóteses e ressalta que a CEG assinou sentença de culpa quando desligou o gás de 40 prédios. Até hoje, segundo Maria de Fátima, a empresa não entregou os fogareiros elétricos prometidos aos moradores, que não têm onde cozinhar. Ela questionou, ainda, a credibilidade do laudo. “Como uma explosão de gás metano pode ter o efeito desse, como de uma bomba atômica?”

Luís Guilherme, filho de Roseana e Francisco Oliveira, também mortos na explosão, foi surpreendido pela reportagem. “Estou tomando conhecimento dessa informação por vocês. Nem sei o que dizer neste momento. Ainda vou ver com a Defensoria Pública que providência vamos tomar”, comentou. Como O DIA mostrou, além de estar sem o fornecimento de gás há um mês, moradores do Conjunto habitacional Fazenda Botafogo ainda recebem cobranças pelos dias em que não tiveram abastecimento.

Com reportagem do estagiário Caio Sartori
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