quarta-feira, 11 de maio de 2016

'Hoje foi com minha filha. E amanhã?', pergunta mãe de baleada em Bangu

'Graças a Deus, não estou no necrotério reconhecendo minha filha', disparou mãe de jovem, em referência ao assassinato de Ana Beatriz Frade, na Linha Amarela, no fim de semana.


Rita de Cássia foi atingida por uma bala perdida na plataforma da estação 
de trem, em Bangu, Zona Oeste da cidade, na manhã desta quarta-feira.
MARLOS BITTENCOURT

Rio - O único consolo da enfermeira Jane Klea Gonçalves dos Santos, de 48 anos, era saber que a jovem Rita de Cassia Gonçalves, de 20, uma de suas quatro filhas, não corre risco de morte. No final da manhã desta quarta-feira, ela estava muito abalada na porta Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, Zona Oeste da cidade. Foi para aquela unidade que mais cedo policiais levaram sua filha, atingida, por volta das 07:40hs., por uma bala perdida na plataforma da estação de trem de Bangu. "Convivemos todo dia com a violência. Hoje foi com a minha filha. Mas e amanhã?", questionou Jane Klea. "A menina de Del Castilho não teve a mesma sorte. Graças a Deus, eu não estou no necrotério para reconhecer minha filha", emendou a enfermeira, fazendo referência à adolescente Ana Beatriz Frade, 17 anos, morta no último fim de semana, após ser atingida na cabeça por um tiro durante um arrastão na Linha Amarela.

Segundo Jane Klea, Rita de Cássia ou Cassinha, como a jovem é conhecida, foi baleada por um tiro de fuzil e a bala ficou alojada na região da axila esquerda. A mulher estava muito nervosa pois não conseguia informações mais precisas sobre o estado de saúde da sua filha. "Me expulsaram do setor de trauma do hospital. Uma funcionária mandou eu esperar do lado de fora e bateu a porta na minha cara, alegando que ela (a Rita) é maior de idade e não tem direito a acompanhante", disse, criticando: "Isso é um absurdo. Eu tenho direito materno de saber o que está acontecendo com a minha filha". Rita de Cássia é secretaria em um escritório de advocacia, na Freguesia, Jacarepaguá, e começa a estudar Direito em uma universidade no próximo semestre. Nesta manhã, ela seguia para o Fórum do Méier, onde resolveria um problema. À reportagem, sua mãe disse que mais cedo, enquanto tomava o café da manhã com a filha, uma intensa troca de tiros podia ser ouvida no bairro. A menina teria comentado: "Ih, mãe! Ainda bem que o meu amigo vem me pegar de carro para me deixar na estação. Não vou precisar ficar andando no meio desses tiros".

Policiais do 14° BPM (Bangu) realizaram uma operação na comunidade Vila Aliança no início da manhã. A ação foi encerrada às 08:00hs., minutos após a jovem ser baleada. Segundo a Polícia Militar, durante incursão, criminosos armados atiraram contra os agentes, dando início a um rápido confronto. Ninguém ficou ferido na favela. Foram apreendidos 55 quilos de maconha. A droga foi encaminhada à 34ª DP (Bangu), onde foi feito o registro.

Jane Klea contou que soube que a filha havia sido baleada através de uma sobrinha que ligou para ela. "Na hora, perdi o chão. Minhas pernas ficaram trêmulas. Liguei para minha filha e ela disse que estava bem, mas que tinha perdido muito sangue", comentou. A mãe da jovem ainda aproveitou para dizer que vai processar a SuperVia. "Os seguranças não deixaram ninguém socorrer a menina. Só autorizou o socorro quando a polícia chegou. Ela foi levada para o hospital pela polícia", comentou, agradecendo ao sargento Olavo, que participou do socorro. "Quero encontrá-lo para agradecer por ter salvo a vida da minha filha", declarou. O caso foi registrado na 34ª DP.

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