sábado, 30 de abril de 2016

Sindicato vai recorrer ao STF para evitar fechamento do Hospital Pedro Ernesto

'É um crime contra a população', disse o presidente. Secretaria repassou R$ 3.500.000,00 na sexta-feira para a unidade.


Vítima de meningite, Jéssica, 11 anos, teme ter que parar tratamento.
LUCAS GAYOSO

Rio - O Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), em Vila Isabel, é a casa de Jéssica Oliveira, de 11 anos, há 8 meses. Vítima de um tipo raro de meningite, ela teve os dois braços e pernas amputados. Além de receber tratamento que inclui cirurgias e fisioterapia, sobra tempo para estudar e pintar com a boca, sua atividade favorita. Com ajuda da professora, ela espera terminar a sua pintura mais recente, mas falta colorir parte da tela. A menina é um dos 200 pacientes que podem precisar buscar uma nova internação caso o hospital, vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), não receba verba de R$ 7.000.000,00 milhões para pagar as empresas terceirizadas. Elas prestam os serviços de infraestrutura na unidade, como limpeza, logística, refeição e manutenção. Algumas não recebem desde o ano passado. A previsão era que governo pagasse na quarta-feira. Parte do valor, R$ 3.500.000,00, foi liberado para o hospital na sexta-feira pela secretaria estadual de Fazenda. Segundo o órgão, no início de abril, já tinham sido repassados R$ 4.100.000,00 para a unidade, totalizando R$ 7.600.000,00 este mês.

No entanto, o diretor-geral do Hupe, Edmar dos Santos, alega que além da verba de R$ 7.000.000,00, a unidade precisa de um montante emergencial estimado em R$ 5.000.000,00, voltado para a compra de insumos básicos. “Chegamos ao limite da negociação. Se permanecer o cenário atual, semana que vem estarei discutindo como remanejar os doentes”, afirmou o diretor.

Remoção de pacientes
Transferir os doentes será tarefa difícil para a direção do hospital. A unidade é referência para diversos tipos de tratamento, como transplantes e cirurgias cardiovasculares. “Mesmo nessa crise recebemos mais de dez crianças com leucemia que teriam morrido se tivessem ficado em suas unidades de origem, assim como vários outros tratamentos de exceção que o hospital faz”, acrescentou Edmar.

Diante da falência iminente, o clima era de luto. Alguns dos médicos mais antigos, com até 40 anos de casa, choravam. “Aqui formamos profissionais e atendemos doenças que só se vê em livros”, disse a coordenadora do enfermaria, Rejane Silva. “É a nossa casa e única fonte de renda para muitos profissionais”, diz. É Rejane quem apresenta a reportagem à Silvana Oliveira, 29, mãe de Jéssica. Vestida com seu lenço estampado de corujas, ela recebe O DIA com um sorriso largo. “Graças a eles estou muito bem.” Apreensiva, Jéssica sonhar apenas continuar o tratamento. “Eles me ajudaram muito. Ainda preciso de ajuda e outras pessoas também. Por favor, lutem para que isso não aconteça”. pediu a menina, que aguarda a professora para desenhar pássaros no céu da tela.

Sindicato vai ao Supremo
Inaugurado em 1950, o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) é o único hospital universitário administrado pelo estado do Rio de Janeiro. Dos 512 leitos do hospital, apenas 200 estão funcionando desde o início do ano. É capaz de realizar cirurgias em mais de 60 especialidades médicas, incluindo procedimentos sofisticados, como cirurgia cardíaca e transplantes de rim e de coração. Na sexta-feira, o diretor geral Edmar Santos ameaçou fechar caso não recebesse a verba. Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, considera a situação uma perda inestimável para o sistema de saúde da cidade. O sindicato vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). “É um dos hospitais mais importantes do sistema público. Forma pessoas, faz pesquisas e atendem todos os tipos de procedimentos. Fechar um hospital como esse é um crime contra a população”, acrescentou. A denúncia será entregue ao STF na terça-feira.


Hospital Universitário, mantido pela Uerj, foi fundado há 66 anos. Nesse período, 
formou especialistas e se tornou referência no tratamento de doenças complexas.

Mesmo com a crise, em 2015, foram feitas 9.500 internações, 4.200 cirurgias e 213 mil consultas. A unidade também formou 1.360 alunos de graduação, 628 residentes, 116 pós-graduandos e 575 mestrandos e doutorandos. De acordo com o diretor da unidade, com os R$ 7.000.000,00 mensais, seria possível usar cerca de 60% da capacidade total de leitos da unidade, além de pagar os salários dos funcionários e terceirizados. A Secretaria Estadual de Saúde informa que já gerou todas as programações de desembolso para pagamentos que foram encaminhados pelo HUPE, bem como a cota financeira destinada à unidade. Os pagamentos, segundo o órgão, cabem à Fazenda.

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