terça-feira, 19 de abril de 2016

Lula briga até o último minuto -- em vão -- para conseguir votos para Dilma

Em um quarto de hotel em Brasília, Lula coordenou as negociações em defesa da presidente. Mas seu prestígio está em baixa -- e ele falhou na primeira batalha, na Câmara.

ALANA RIZZO 
E TALITA FERNANDES

Mesmo após voltar às pressas para Brasília na manhã de domingo, a fim de tentar represar a sangria de votos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fracassou na sua principal missão desde que conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010. Lula não conseguiu reverter os votos necessários para impedir o prosseguimento do processo de impeachment da presidente. O ex-presidente assistiu a votação ao lado de Dilma e dos ministros Jaques Wagner, do Gabinete Pessoal da Presidência, e Ricardo Berzoini, secretário de Governo, no Palácio da Alvorada. Visivelmente abatido e sem voz, Lula desistiu de participar do ato contra o impeachment no Vale do Anhangabaú e retornou a Brasília logo pela manhã, depois de passar a noite em São Bernardo do Campo (SP). A viagem para a capital federal foi mais uma tentativa de última hora de angariar votos contra o impeachment. Pelo twitter, o Instituto Lula anunciava a missão: “Trabalhando pela democracia e o Brasil. O voto de 54 milhões não será desrespeitado.#naovaitergolpe”.

Ao longo do domingo, a estratégia foi batalhar pelos indecisos, por abstenções e ausências. Mas Lula passou a receber negativas até mesmo para conversas. Parlamentares passaram a evitar o ex-presidente – alguns preocupados em não desagradá-lo – e o pessimismo se instalou entre os governistas antes mesmo do início da votação. Orientados pelo ex-presidente, aliados tentavam converter colegas hesitantes até mesmo no banheiro da Câmara. “Não vote de jeito nenhum. Você não é obrigado a votar. Então, se você não votar com o povo, não vote,” conclamava o deputado federal Vicentinho (PT-SP). O clima piorou com as traições.

Mesmo abalado, Lula quer unir a militância. O ex-presidente temia que o resultado na Câmara dos Deputados desanime os apoiadores de Dilma e do PT e fragmente os movimentos sociais, há tempos insatisfeitos com o governo. A ideia do ex-presidente, segundo aliados, é atacar o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), adotando o discurso de “nem Dilma, nem Temer, nem Cunha”.

No sábado pela manhã, em um acampamento montado por manifestantes contra o impeachment em Brasília, Lula falou por menos de 10 minutos. O discurso era para uma tradicional claque do PT – pequenos produtores rurais e militantes do movimento estudantil -- , mas mesmo assim não incendiou o grupo. Lula já chegou pedindo desculpas por ter de ir embora rápido. Ainda iria negociar com governadores, estratégia que o governo demorou a perceber que poderia surtir efeito na virada de votos. O ex-presidente estava acompanhado de um grupo de parlamentares que passou a semana trabalhando no bunker montado num quarto de hotel em Brasília. Entre eles: o deputado Orlando Silva (SP) e as senadoras Vanessa Grazziotin (AM) e a senadora Gleisi Hoffman (PR). Lula deixou o ato direto para o hotel, onde passou a tarde recebendo políticos e ligando para aliados. Foram as últimas horas de um esforço organizado e extenuante, que havia começado dias antes.

COMO FUNCIONOU O BUNKER DE DEFESA DO GOVERNO.

Era tarde de quarta-feira, quatro dias antes da votação do impeachment na Câmara, e uma fila de convidados se acomodava num pequeno café no hotel Royal Tulip, a menos de 1 quilômetro do Palácio da Alvorada. O local se transformara em sala de espera. Políticos e assessores aguardavam para falar com o ex-presidente Lula, que transformara um quarto do hotel em escritório informal desde que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o impedira de assumir a Casa Civil. A cena vista na quarta-feira se repetia havia quase um mês no local – e, com a aprovação pela Câmara do impeachment da presidente Dilma, o espaço deverá se manter como barricada governista. A presença de Lula mudou o hotel. O corredor do quarto do ex-presidente estava tomado por seguranças. Políticos e assessores entravam e saíam. Os visitantes eram conduzidos por uma assessora equipada com headphone. A cada encontro entre um que chegava e um que saía, ouvia-se “E aí, falou com ele?”. Lula ganhou uma rouquidão adicional. A alguns convidados, pareceu abatido.

O ex-presidente tem passado mais tempo em Brasília do que em São Bernardo do Campo, onde vive. Sua missão na capital federal era tentar garantir ao governo ao menos 172 votos na Câmara dos Deputados para evitar o avanço do processo de impeachment. Nos primeiros dias, a prosa do ex-presidente, negociador hábil, pareceu surtir efeito. O governo ficou animado. Lula ainda foi estimulado por uma pesquisa do Datafolha que o colocou no topo das intenções de voto para presidente, em 2018. Líderes aliados repetiam pela Câmara que o vice-presidente Michel Temer fracassara no esforço de levar a base governista a apoiar o impeachment. Mas o cenário não tardou a mudar. Num primeiro momento, Lula apostou em conversar com presidentes de partidos e líderes. Depois de falar com o ex-presidente, os interlocutores eram encaminhados ao Palácio do Planalto, onde ouviam promessas de cargos e emendas. Algumas nomeações foram publicadas no Diário Oficial, mas Dilma decidiu só mexer no ministério após a Câmara votar o processo que pede sua cassação. O plano começara a fracassar.

Logo depois de a comissão especial do impeachment aprovar o relatório de Jovair Arantes (PTB-GO), que recomendou o prosseguimento da ação, partidos da base governista começaram a debandar. O PP saiu. Foi seguido por PSB, PTB e PSD. Em seguida, o grupo de partidos nanicos – PTN, PHS, PROS, PSL e PEN – também se foi. Os deputados que debandavam, do baixo clero dos partidos, não seguiam a orientação das lideranças. Lula teve de recalcular a estratégia.

A senadores próximos, confidenciou que errara ao falar primeiro com líderes e presidentes das siglas. Na Câmara fragmentada, as lideranças têm controle frouxo das bancadas. O ex-presidente partiu para conversas individuais. Pediu a aliados que levassem a ele os nomes dos que ainda poderiam ficar com o governo. Além disso, falou com os ex-ministros Luiz Sérgio, Luiz Dulci e Orlando Silva e com os governadores petistas Fernando Pimentel (Minas Gerais), Wellington Dias (Piauí) e Rui Costa (Bahia). Pediu mais empenho na busca por apoio e criticou a postura de alguns parlamentares aliados que aparentavam ter desistido. Para usar uma metáfora futebolística tão ao gosto do ex-presidente, Lula se tornou uma espécie de quarto-zagueiro, o último homem na defesa do governo. Mas as conversas pareciam não surtir mais efeito. E o perigo de gol é iminente.

No Senado, reclama-se que Lula abandonou a Casa. Alguns senadores mostram pouco interesse em falar com o ex-presidente. Eunício Oliveira (PMDB-CE) foi convidado a ir ao hotel onde Lula está hospedado. Em resposta, ofereceu sua casa como ponto de encontro. Não foi mais procurado. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também não foi mais sondado.

Lula não desfruta mais do mesmo prestígio. Foi desgastado pela Operação Lava Jato e pelo parecer do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que se manifestou contra sua posse. Tornou-se um fiador sem lastro. Lula já disse que não sairá das ruas se Dilma for afastada. Se o processo avançar para o Senado, tentará organizar manifestações, a fim de mostrar que o governo e o PT contam com apoio popular. Já mandou recado de que seu partido voltará ao papel de oposição barulhenta. “Não estaremos nessa de união nacional. Não vamos colaborar”, afirmou. E Lula sempre foi um opositor temível. Mas, pelo ânimo dos correligionários que o visitaram nos últimos dias, a estrela petista perdeu muito do brilho.

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