sexta-feira, 22 de abril de 2016

Ligada a família do secretário de Turismo, ciclovia de R$ 44 mi cai e mata dois

Câmara vai apurar se houve favorecimento para a empresa do avô de Antônio Pedro Figueira de Mello em licitação para a obra milionária.


Força de baixo para cima das ondas gigantes é causa provável da queda de trecho da ciclovia. 
Mas especialistas apontam erro de cálculo na construção dos pilares da pista
O DIA

Rio - No mesmo dia em que a tocha olímpica era acesa, na Grécia, o Rio de Janeiro viveu mais uma tragédia provocada por descaso num dos principais legados dos Jogos. Planejada para durar 40 anos, ao custo de R$ 44.000.000,00, parte da ciclovia Tim Maia na Avenida Niemeyer, em São Conrado, caiu na quinta-feira pela manhã, três meses após a inauguração, matando duas pessoas. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar as causas do acidente, que segundo especialistas ouvidos pelo DIA teria sido provocado por falhas no projeto ou na estrutura da via. As pistas não estariam preparadas para suportar o choque das ondas do mar, que na quinta amanheceu sob forte ressaca. A ciclovia foi interditada por tempo indeterminado.

Uma das vítimas, o engenheiro Eduardo Marinho de Albuquerque, de 54 anos, foi reconhecido pelo cunhado João Ricardo Tinoco. “Ele gostava de correr por ali. Saiu de casa, em Ipanema, às 10:00h. Minha irmã sentiu um aperto no peito e pediu que eu viesse até a praia atrás dele”, disse. Antes de sair para correr, ele deixou um bilhete para o filho Rodrigo, de 15 anos, dizendo que o amava muito. A viúva, a médica Eliane Fernandes chorou muito ao encontrar o corpo do marido na praia. Eduardo será cremado nesta sexta-feira no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju. Pela manhã, bombeiros vão retomar as buscas no mar para tentar localizar uma terceira vítima. Até quinta à noite não havia a identificação do segundo corpo, de um homem, levado para o Instituto Médico Legal (IML).


A médica Eliane, mulher do engenheiro que morreu no acidente, 
se desesperou ao ver o corpo do marido.

Para José Schipper, engenheiro civil e vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-RJ), provavelmente, o que aconteceu foi um problema na concepção do projeto. “A amarração de ferro que faz a ligação entre os pilares e a parte horizontal da estrutura não foi forte o suficiente para aguentar as ondas”, afirma. Já o engenheiro Raul Rosas, do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio, concorda. “Uma onda forte deve ter atingido a estrutura de baixo para cima causando uma força aparentemente superior ao que foi previsto no projeto”, avaliou. Outra hipótese é que no trecho do acidente só havia uma viga. Nos demais trechos, há duas vigas, o que dificulta o tombamento.

O professor da PUC e o vice-presidente do Crea-RJ compararam a possível causa do desabamento com a queda de uma passarela na Linha Amarela, em 2014, que foi atingida por um caminhão. Na ocasião, cinco pessoas morreram e quatro ficaram feridas.


Confira o gráfico para entender como aconteceu o desastre fatal.

O morador Guilherme Miranda, 42, escapou por muito pouco. “Estava a poucos metros. Parei para admirar a vista e quando olhei a onda estava arrastando tudo. Podia ter sido eu”, disse. Outras pessoas contaram que sentiam a ciclovia tremer. “Balançava muito. Mas não imaginávamos isso. Graças a Deus eu escapei, tinha acabado de passar no local, foi questão de segundos”, disse Damião Pinheiro, 60 anos, da Rocinha.

O prefeito Eduardo Paes, que estava na Grécia na cerimônia olímpica, lamentou o acidente e se solidarizou com as famílias. O secretário executivo de Governo, Pedro Paulo Carvalho, classificou o acidente como imperdoável. “Não sabemos se a ciclovia é segura ou não, mas a princípio não há riscos de novos desabamentos”, disse. À noite, ciclistas fizeram um protesto na Cinelândia em homenagem às vítimas da Niemeyer. Eles cobraram mais segurança nas ciclovias cariocas.

Construtora é da família do secretário de Turismo
Vereadores do Rio vão investigar se a empresa Concremat Engenharia foi favorecida na licitação feita pela prefeitura para a construção da ciclovia Tim Maia em São Conrado. Isso porque a construtora pertence à família do secretário municipal de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Mello. Ele é neto de Mauro Ribeiro Viegas, fundador da empresa. O atual presidente é Mauro Viegas Filho, tio do secretário.


A chegada de um ciclone pode ter favorecido a forte ressaca. A grande pressão 
sobre as estruturas deveria ser projetada na obra, segundo especialistas.

Um dos legados olímpicos dos Jogos Rio 2016, a ciclovia, deverá ser um dos principais alvos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que a Câmara de Vereadores vai instaurar para apurar os contratos realizados nas obras olímpicas. No último dia 12, o juiz Eduardo Klausner, da 7ª Vara de Fazenda da Justiça, determinou a imediata instalação da CPI. “A investigação é a favor da transparência, dos recursos públicos e da cidade do Rio”,disse o vereador Jefferson Moura (Rede).

O vereador Marcio Garcia (Rede) também cobrou mais transparência nos contratos. Segundo ele, a Concremat, responsável pelas obras, esteve envolvida em suspeitas de licitações fraudulentas. “Em 2013, Eduardo Paes anunciou novo contrato para execução das obras na segunda fase de construção do corredor expresso TransOeste. As vencedoras para gestão de obras foram as empreiteiras Concremat e Sanerio”, disse.


Frequentadores da pista informaram ter sentido tremores nos últimos dias. 
Segundo meteorologistas, ressaca não é atípica para o período.

Garcia propôs uma espécie de “Lava Jato carioca” para investigar os contratos feitos pelo PMDB, partido do prefeito. “Diferentemente da ressaca no mar, que passará em alguns dias, a que atinge o Rio deve levar mais tempo, pelo menos até o dia em que tivermos no Estado uma Lava Jato para passar a limpo mais uma década de gestão do PMDB”, afirmou o vereador, referindo-se à tragédia na ciclovia. A Concremat, citada na Lava Jato, estaria envolvida até com o doleiro Alberto Youssef, preso na Polícia Federal, em Curitiba. Ainda de acordo com as investigações, a empresa estaria associada à holandesa Arcadis, alvo da PF num esquema suspeito de desvio de R$ 200.000.000,00 da obra de transposição de águas do Rio São Francisco.


Cid escapou por pouco da queda

A assessoria do prefeito Eduardo Paes disse que ele irá se pronunciar hoje sobre o acidente na ciclovia. Em nota, a Concremat disse “ter participado do processo de licitação que foi acompanhado por todos os órgãos de fiscalização competentes”. Em nota, o secretário municipal de Turismo Antônio Pedro negou ter ligação com a Concremat. “Tendo em vista que órgãos de imprensa ligaram meu nome à Concremat, esclareço que, apesar do parentesco, durante a minha vida jamais trabalhei ou tive participação ou relação com os negócios da Concremat, fundada por meu avô. Ligar meu nome ao da empresa além deste parentesco é fato sem fundamento e sem sentido", afirmou.

Atleta teve presságio e escapou
Eram 07:30hs., quando o advogado Cid Motta, de 31 anos, começou a treinar para a Maratona do Rio, que será disputada em maio. Quando saiu da Cinelândia, seu plano era correr 35 quilômetros. Seria o suficiente para ir até o final da ciclovia, em São Conrado, e retornar. Um “pressentimento ruim” o fez percorrer 25 quilômetros e parar 300 metros antes do local do acidente. Meia hora depois, a ciclovia veio abaixo. “Resolvi atender a esse pressentimento e assim que meu GPS bateu 25 quilômetros, eu parei. Não foi a minha hora, e agradeço ao recado que veio lá de cima. Hoje só me resta o choque, a tristeza e o agradecimento a Deus por ter me dado mais uma chance”, contou.

Mídia internacional repercute
O jornal britânico ‘The Guardian’ se referiu ao acidente como “golpe ao prestígio do Rio”, a 106 dias da Olimpíada. O americano ‘Wall Street Jornal’ levanta dúvidas da segurança das obras feitas para os Jogos. Para a agência ‘Associated Press’ o acidente se soma à turbulência política no país, aos cortes no orçamento e até mesmo ao surto de Zika vírus. Já a ‘BBC’ esclareceu que nenhum evento olímpico ocorrerá na área da ciclovia.


Mídia internacional repercute a tragédia

Ciclone no Sul gerou ressaca
De acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as ondas gigantes na região, que atingiram 4,5 metros na entrada da Baía de Guanabara, foram causadas por um ciclone formado no sul do país. “É normal esse swell (ondas gigantes) durante esse período”, explica o meteorologista Marcos Vianna. Dias antes da tragédia, frequentadores já notavam os sinais da natureza na região. A guia de turismo Ana Lima, contou que na quarta-feira sentiu que algo estava errado na ciclovia. “Levei três turistas no Castelinho, sentimos que a ciclovia tremia muito a cada vez que uma onda batia”, relembra. “Eu comentei que aquilo ia acabar caindo”.

Há cerca de duas semanas, Fabrini Tapajós, do Movimento Salvemos São Conrado, também havia percebido mudanças na orla. Ele lembra que um buraco abriu em São Conrado há dez dias. Ele e amigos do grupo fizeram um mutirão para recolher as pedras que se desprenderam do calçadão, após a maré alta. “Juntamos três toneladas e chamamos a subprefeitura”, lembra.

O trecho foi interditado na quarta-feira à noite, quando a cratera aumentou ainda mais, por causa das ondas que atingiam a área. “Chamamos Defesa Civil e Bombeiros que interditaram a área. Avisamos que algo pior poderia acontecer, jamais imaginamos que seria com a ciclovia”, revela Fabrini. Segundo ele, as ondas são normais na região: “É assim todos os anos.”

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