domingo, 24 de abril de 2016

Falta de medicamentos aumenta o sofrimento de famílias e 70 mil pacientes

Sem remédios na Farmácia Estadual de Medicamentos 
Especiais, alguns correm até risco de vida.


Pensionista com o pagamento atrasado, 
Ângela se desesperou sem o remédio do filho.
GUSTAVO RIBEIRO

Rio - Com o pagamento do estado atrasado por causa da crise financeira, a pensionista Ângela Maria Braga, 56 anos, fez um ‘bico’ terça-feira passada, na Zona Sul. Saiu de lá depressa para chegar no horário marcado à Farmácia Estadual de Medicamentos Especiais, a Rio Farmes, na Cidade Nova, onde busca remédio sem custo para o filho, doente renal crônico. Depois de meia hora na fila, ela se desesperou ao saber que a medicação está em falta. “Meu filho tem 23 anos e faz hemodiálise. O que acontece se ficar sem o remédio? Ele morre, né?”, desabafou. O filho de Ângela é um entre milhares de portadores de doenças crônicas e raras do Rio que estão sendo prejudicados pela falta de remédios diversos no centro de distribuição do governo. Existem pacientes com outras doenças graves enfrentando o problema há pelo menos seis meses. Para a maioria, ter ou não a medicação é caso de vida ou morte. Cerca de 70 mil pessoas dependem desse serviço. A pensionista terá de se endividar para comprar o Alfaepoetina injetável, utilizado no tratamento de anemia causada por insuficiência renal. O jovem precisa de oito doses por mês e cada caixa custa R$ 50,00 nas farmácias comuns. A Rio Farmes entrega mensalmente os medicamentos aos doentes.

Em meio a crises de falta de ar, o aposentado Luiz Garcia de Lima, 82, que tem insuficiência respiratória, vai à unidade da Rio Farmes em Duque de Caxias e, desde novembro, volta para casa sem o composto de Formoterol e Budesonida. Na última terça, o idoso resolveu ir à Cidade Nova para checar se lá tinha o remédio, que evita as crises. Foi à toa. “Quando agrava a crise, vou ao posto de saúde, tomo injeção, faço nebulização. Vou levando assim”. O medicamento não está em falta nas farmácias privadas, mas as 60 doses necessárias por mês custam R$ 124,00 e o cartão dele estourou.

A crise na Rio Farmes vem à tona um mês depois de o governo do Rio ter queimado 300 toneladas de medicamentos e insumos hospitalares vencidos, encontradas, em fevereiro, na Central Geral de Abastecimento da Secretaria Estadual de Saúde, em Niterói. Desde o ano passado, 1.000 toneladas foram inutilizadas pelo mesmo motivo. A Comissão de Orçamento, Fiscalização e Controle da Assembleia Legislativa do Rio apontou que o estado gastou quase R$ 3.000.000,00 para incinerar todo o material.


'Às vezes, marcam data para ir buscar o remédio e, quando chegamos lá, dizem que acabou. 
Nunca dão previsão', Erly Almeida, 66 anos, tem Hipertensão Pulmonar.

Pacientes relataram ainda que estão em falta, na Rio Farmes, remédios para esquizofrenia, retocolite ulcerativa, lúpus e hipertensão arterial pulmonar (HAP). Portadora de HAP, a aposentada Erly Almeida, 66 anos, não recebe seu vasodilatador desde fevereiro. “Nunca dão previsão”, afirma. As filhas ajudam a comprar o medicamento, que custa R$ 500,00 por mês.

Pacientes usam redes sociais para pedir doações
Portadora de lúpus, a moradora de Nova Iguaçu Marcelle Fassini, 32 anos, conseguiu pegar o Hidroxicloroquina pela última vez em novembro na Rio Farmes. O remédio evita crises da doença, que causa inflamações em vários órgãos. Desempregada, ela não tem condições de custear o tratamento. “Quando consigo comprar, tomo metade do comprimido para uma caixa durar dois meses”, diz Marcelle. Sem a medicação, ela fica debilitada, com dores no corpo e acamada. Marcelle viu em grupos de pacientes com lúpus no Facebook a saída para obter seu medicamento. Pessoas que têm remédios sobrando em outro estados fazem doações pela internet. Há regras no grupo: é proibido cobrar para enviar os fármacos e é necessário postar foto da receita médica dentro da validade. Presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Pablo Vazquez vê a prática com bons olhos, desde que sem fins comerciais, mas diz que os prazos de validade devem ser observados. Ele se preocupa com a situação da Rio Farmes: “Essa situação é lamentável, porque a descontinuidade do medicamento agrava a saúde das pessoas.”

Estado não adota medidas emergenciais para os casos
A Secretaria Estadual de Saúde informou que o pregão eletrônico para compra de Sildenafil 20 mg, para hipertensão arterial pulmonar, fracassou devido aos valores ofertados estarem acima do estimado. O processo passará por nova licitação em breve, mas não foi informada previsão. Sobre o Alfaepoetina 4.000 UI, para doentes renais, a secretaria esclareceu que ele estará disponível na próxima semana. Já o Formoterol 12 mcg + Budesonida 400 mg, para insuficiência respiratória, está em fase final de aquisição. A Hidroxicloroquina 400 mg, para lúpus, tem previsão de entrega para os próximos dias.

A causa da escassez desses três remédios não foi esclarecida, nem a quantidade total de pessoas afetadas. O Mesalazina 400 mg, para problemas intestinais, está em falta pela mesma razão do Alfaepoetina. Segundo a pasta, o Olanzapina 10 mg, para esquizofrenia, chegou quarta-feira na Rio Farmes Praça 15. Pessoas atingidas pelo problema muitas vezes recorrem ao núcleo da Defensoria Pública com o laudo e prescrição médica. Medidas judiciais podem ser adotadas. Informações pelo telefone 129.

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