sábado, 23 de abril de 2016

Além de ciclovia, outras obras feitas por empresa apresentaram problemas

Prefeitura vai reter 10% do valor do contrato da obra, R$ 4.470.000,00, até a conclusão das investigações sobre a queda.


Projetos olímpicos apresentaram muitos problemas. O asfalto do 
BRT Transoeste cedeu e, em Ipanema, obras do metrô abriram um buraco.
O DIA

Rio - Além da ciclovia da Niemeyer, que desabou um trecho na última quinta-feira matando duas pessoas, outras obras realizadas no Rio com participação de empresas do grupo Concremat apresentaram problemas. “O acabamento ficou todo ruim. Faltam pedaços nas pastilhas das paredes. O chão tem trechos sobressaltados, dá para tropeçar”. O relato, de Fernanda Figueira, moradora do Complexo do Pedregulho, em São Cristóvão, denuncia a qualidade da reforma entregue pela Concrejato, empresa do grupo, no ano passado. O restauro do conjunto habitacional tombado, com 328 apartamentos, custou R$ 46.000.000,00 ao estado. “A parte estrutural parece bem feita, mas os acabamentos, não. Embaixo do prédio, abriram buracos no forro e não fecharam. Parte da grade e dos tijolos da frente está soltando”, diz o morador Cláudio Fernandes.

A Concremat é líder do consórcio que gerencia e fiscaliza a implantação da Linha 4 do metrô. Em 2014, o Tatuzão, utilizado nas escavações, causou afundamento do solo e a abertura de duas crateras em Ipanema, gerando atraso e aumento do preço da obra, orçada inicialmente em R$ 7.500.000.000,00. No início do mês, o governo informou que o valor subiu para R$ 8.400.000.000,00. A empresa ganhou para gerenciar a segunda fase da obra do Transoeste. A Concrejato fez ainda o Museu de Arte do Rio, que tem rachaduras. Procurados à noite, o governo e a prefeitura, responsáveis, respectivamente, pelo Complexo do Pedregulho e pelo MAR, e a Concremat não responderam.

Polícia apura homicído culposo na queda de trecho da ciclovia
A Polícia Civil abriu inquérito por homicídio culposo (sem intenção de matar) para apurar a queda de um trecho de 20 metros da ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, na quinta-feira, que causou a morte de duas pessoas. Peritos da 15º DP (Gávea) fizeram perícias no local. Na semana que vem, serão convocados a depor os engenheiros responsáveis pelo projeto e execução da obra, no valor de R$ 44.700.000,00. A prefeitura contratou a Coppe/UFRJ e o Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH) para realizar perícia independente na via e na ciclovia do Elevado do Joá, cujas obras devem ficar prontas em junho, para levantar os pontos vulneráveis à ação do mar. O laudo conclusivo será entregue em 30 dias. Um dos engenheiros da Concremat que assinou pela via da Niemeyer também participa da construção da ciclovia do Joá. Por volta das 22:30hs., a pista sentido Leblon da Avenida Niemeyer, que ainda permanecia interditada, foi liberada ao tráfego de veículos.


Bombeiros realizaram novas buscas por outras vítimas 
na sexta-feira e elas foram retomadas no sábado.

O município fará interdições temporárias na ciclovia da Niemeyer, como ocorre na Ponte Rio-Niterói em casos de forte ventania. A Secretaria Municipal de Obras anunciou a retenção de 10% do contrato —R$ 4.470.000,00 — pago à Concremat até a conclusão das investigações. Na sexta-feira, a ressaca em São Conrado continuava forte, dificultando as buscas a outras possíveis vítimas. À tarde, moradores do Vidigal avistaram um corpo no mar, mas bombeiros não conseguiram localizá-lo. As buscas foram retomadas no sábado por 40 bombeiros, com apoio de embarcações e helicópteros. A previsão é que as ondas diminuam e os mergulhadores possam ajudar no resgate. No início da tarde, a pista sentido São Conrado foi liberada ao trânsito. O clima de feriado prolongado contrastava com as reações de pessoas que passavam pelo local do acidente. “Dei sorte de ter parado para conversar com uma amiga que encontrei no mirante. Até que seja feita uma reforma consistente em toda a extensão, eu não ponho os meus pés de novo”, disse Mauro Menezes, 51 anos.


A força das ondas atraiu dezenas de pessoas no mirante de São Conrado. 
No Vidigal, moradores disseram ter avistado um corpo no mar.

A esperança de avistar uma vítima era considerada pequena pela própria equipe de resgate. “O corpo pode ter ficado preso submerso no rochedo. Mas acreditamos que a força da corrente já tenha arrastado por cerca de 30 quilômetros em direção ao Recreio”, disse o comandante das forças de resgate, Marcelo Pinheiro. O engenheiro Antônio Eulálio, do Conselho Regional de Engenharia do Rio, ressaltou que a estrutura deveria estar preparada para ondas muito maiores. “Em plataformas oceânicas, os cálculos devem levar em conta a força de onda que pode quebrar uma vez a cada cem anos. Houve falha de projeto”, diz.

Engenheiro foi cremado no sábado
A família de Ronaldo Severino da Silva, 60 anos, gari comunitário na Rocinha, passou toda a manhã da sexta-feira no Instituto Médico-Legal para liberar o corpo para o sepultamento. Ele foi reconhecido por impressões digitais. Segundo familiares, o enterro será hoje de manhã, mas o local não foi divulgado. O presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Carlos Eduardo Barbosa, disse que Ronaldo era um ótimo amigo. “Ele trabalhou conosco por mais de dez anos. Era muito querido por todos, está sendo difícil”, lembra. “Ninguém ofereceu ajuda, estamos vendo como a associação pode ajudar.” O corpo do engenheiro Eduardo Marinho foi cremado no sábado, às 11:00hs., no Memorial do Carmo, no Caju.

Reportagens de Amanda Raiter, Bruna Fantti, Gustavo Ribeiro, Lucas Gayoso, Marlos Bittencourt, Tássia Carvalho e a estagiária Daniele Bacelar

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