quarta-feira, 23 de março de 2016

Operação Lava Jato chega às obras para Olimpíadas no Rio

Marcelo Odebrecht e toda a diretoria da empreiteira anunciaram que farão acordo de colaboração com a Lava Jato.


Obra da Linha 4 do Metrô: cartão de visita da 
Olimpíada do Rio está sob a investigação da Lava Jato.
BRUNA FANTTI

Rio - Preso desde 19 de junho do ano passado, o homem forte da empreiteira Odebrecht se rendeu e resolveu contar o que sabe sobre o esquema do desvio de recurso da Petrobras. É muita coisa. Marcelo Odebrecht e toda a diretoria da maior construtora do país anunciaram na noite da terça-feira que farão acordo de colaboração com a Operação Lava Jato.

A iniciativa faz tremer o governo e a oposição e pode agravar ainda mais a crise política. Segundo nota assinada pela empresa, os diretores da empreiteira estão dispostos a falar sobre o mais delicado dos assuntos da política: o financiamento de campanhas eleitorais. “Apesar de todas as dificuldades e da consciência de não termos responsabilidade dominante sobre os fatos apurados na Operação Lava Jato – que revela na verdade a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país - seguimos acreditando no Brasil”, diz o documento da Odebrecht.

Xepa
A decisão da delação da diretoria da Odebrecht ocorreu no mesmo dia em que os investigadores da Lava Jato desencadearam a 26ª fase da operação, apelidada por eles de Xepa. A operação foi desencadeada em oito estados. Em todos, o foco ficou concentrado em obras feitas pela construtora. Duas delas estão no Rio de Janeiro, o Porto Maravilha e a Linha 4 do Metrô. É a primeira vez que iniciativas do chamado Legado Olímpico ficam sob a mira da Lava Jato. A Odebrecht faz parte dos consórcios responsáveis pelas construções. Ao todo, nesta fase da operação, quatro suspeitos tiveram a prisão preventiva decretada; outros nove, a prisão temporária. O presidente da Supervia, Carlos José Vieira Machado da Cunha, foi uma das 28 pessoas conduzidas para depor. Em relação às obras do Porto, a Prefeitura do Rio disse que as licitações foram fiscalizadas. Já o governo do Estado não quis se manifestar.

Os nomes das obras do Rio aparecem em uma série de planilhas e e-mails apreendidos com a ex-secretária do ‘Setor de Operações Estruturadas’ da empreiteira, Maria Lúcia Tavares, que no início deste mês fez um acordo de delação premiada, após ser presa. Por meio de codinomes e usando um programa chamado ‘MyWebDay’, a secretária extraía semanalmente programações para pagamentos de propinas. Uma nota apreendida sugere o pagamento de R$ 2,5 milhões a um emissário chamado ‘carioquinha’ nas obras do metrô, cuja senha para viabilizar o pagamento era “Macarrão”. Todas as transações ilícitas, segundo Maria Lúcia, eram pagas em espécie a emissários que entregavam a pessoas conhecidas somente por apelidos. Outras obras também podem ter recebido dinheiro paralelo para beneficiar a Odebrecht em licitações, como a do estádio do Corinthians, em São Paulo e a do aeroporto de Goiânia.

Durante coletiva de imprensa, o procurador da força-tarefa Carlos Lima afirmou que as investigações ainda serão aprofundadas. “Há indicativos de que os recebedores se referem a obras e serviços do Governo Federal e de diversos Governos estaduais e municipais”, analisou Lima.

Por dentro da casa de Paul
Um dos executivos da Odebrecht presos nesta nova fase é o o chefe da Odebrecht Realizações Imobiliárias, Paul Eli Altit. A Polícia Federal também realizou um mandado de busca e apreensão na sua residência, localizada na Lagoa, Zona Sul. A movimentação chamou a atenção dos moradores do luxuoso prédio, um dos mais caros do bairro. Um apartamento no edifício custa em média em R$ 5 milhões.

O apartamento está localizado no Giacomo Puccini. Construido no começo dos anos 80, tem apenas dois apartamentos em cada pavimento , sendo que cada coluna tem um elevador social e outro de serviço. Cada unidade possui 380 metros de área útil, em três ambientes, duas dependências de empregadas e quatro vagas na garagem, sendo que algumas unidades chegam a ter cinco vagas. Paul Elio Altit é um dos nomes envolvidos que aparece em um e-mail da negociação de um possível pagamento de propina às obras do Porto Maravilha. Na conversa eletrônica, ainda participam Antonio Pessoa e Rodrigo Costa Melo, outros executivos da empreiteira da Odebrecht. Da mesma maneira que Marcelo Odebrecht, todos esses empresários resolveram colaborar com as delações da Lava Jato.

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